A manhã desta sexta-feira amanheceu com o ritual já clássico no Rio de Janeiro, aquele em que viaturas da Polícia Federal estacionam na porta de um ex-governador e câmeras de televisão se posicionam para o flagrante do paletó amassado. Desta vez o protagonista é Cláudio Castro, e a única novidade é o nome, porque o enredo, o figurino e os créditos finais são exatamente os mesmos que o estado encena há décadas com pontualidade britânica. O Rio coleciona governadores presos, indiciados, foragidos e delatores como outros estados colecionam medalhas olímpicas, e ninguém mais se dá ao trabalho de fingir surpresa.

Antes de qualquer juízo sobre culpa ou inocência, convém fazer a pergunta que os comentaristas oficiais sempre evitam, aquela que separa o jornalismo do release maquiado: quem ganha dinheiro com a máquina pública fluminense? Porque a resposta não é o cidadão que paga IPVA confiscatório, ICMS embutido em cada pão francês e pedágio em estradas esburacadas. A resposta são os contratos, os fornecedores, os operadores, os intermediários, os sobrinhos de assessor, as empreiteiras que mudam de nome mas não de CNPJ controlador, e os caciques partidários que cobram pedágio antes do pedágio chegar ao motorista. Toda operação policial em palácio é só a foto final de uma cadeia produtiva que opera há anos à luz do dia, com nota fiscal e tudo.

Há uma lógica que insiste em escapar do debate público, e ela é desconcertante de tão simples. Se uma instituição concentra a decisão sobre orçamentos bilionários, controla a polícia que investiga a si mesma, regula os concorrentes dos seus financiadores de campanha e ainda imprime legitimidade pela urna a cada quatro anos, o resultado previsível não é virtude republicana, é exatamente isto que se vê na tela da TV. A premissa é que o poder atrai quem quer poder, a premissa menor é que dinheiro alheio sem dono específico se gasta sem dor, e a conclusão é o noticiário de quinta após quinta. Não há mistério, há mecanismo.

O detalhe sórdido que o telejornalismo prefere maquiar é que a Polícia Federal, o Ministério Público e o próprio governador são pagos pelo mesmo bolso, o do trabalhador fluminense que carrega nas costas uma das maiores cargas tributárias estaduais do país e recebe em troca hospitais sem gaze, escolas sem giz e milícia controlando a entrada do próprio bairro. O cidadão financia o crime, financia a investigação do crime, financia a defesa do investigado, financia o presídio que talvez o receba, e ainda assiste a tudo isso em um televisor cujo imposto pagou três vezes. É uma proeza de engenharia extrativa que faria corar qualquer monarca absolutista do século dezessete.

O cinismo do espetáculo está em vender a operação como prova de que o sistema funciona, quando o que ela revela é precisamente o contrário, que o sistema produz, de modo recorrente e estatisticamente previsível, exatamente o tipo de figura que ele mesmo finge combater. É como aplaudir o bombeiro que apaga o incêndio na fábrica de fósforos da qual ele é sócio oculto. Se a colheita é sempre podre, o problema não está no agricultor da vez, está na terra, no clima e no contrato de arrendamento que ninguém ousa rasgar. Mudam-se os nomes, mantém-se a estrutura, e o eleitor é convidado a torcer no próximo turno como se torce em final de campeonato, sem perceber que comprou ingresso para assistir o próprio bolso ser furtado em câmera lenta.

No fim, a pergunta inicial volta com a teimosia de credor à porta. Quem paga? O fluminense comum, do operário de Duque de Caxias à dona de casa de Campo Grande, do motorista de aplicativo da Barra ao aposentado de Niterói. Quem recebe? A nomenclatura que se reveza no comando da máquina, seus afilhados, seus financiadores e, num arremate quase poético, os próprios investigadores cuja existência institucional só se justifica enquanto houver o que investigar. É um arranjo redondo, eficiente em seus próprios termos, e absolutamente devastador para quem está fora dele. Castro talvez seja culpado, talvez não, isso o processo dirá. O que já está decidido, e dispensa qualquer tribunal, é que o contribuinte foi condenado antes mesmo da denúncia, e a pena dele é vitalícia.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.