Uma ex-modelo brasileira chamada Amanda Ungaro publicou ameaças contra o casal presidencial dos Estados Unidos, ligou o nome de Donald Trump ao de Jeffrey Epstein em resposta a uma declaração de Melania, e depois apagou tudo como quem varre lixo pra debaixo do tapete antes da visita da sogra. Este é o fato. Seco, ridículo e, ao mesmo tempo, sintomático de uma patologia social que se instalou nos algoritmos e nos cérebros com a mesma velocidade e a mesma profundidade, isto é, nenhuma das duas.

O nome de Epstein virou o que os romanos chamariam de crimen maiestatis invertido: antes, acusar alguém de lesa-majestade era a arma dos poderosos contra os fracos; hoje, gritar "Epstein!" é a arma dos impotentes contra qualquer figura que lhes desperte ódio suficiente para tuitar antes de pensar. A lógica, quando existe, funciona assim: Epstein conhecia pessoas ricas e famosas; Trump é rico e famoso; logo, Trump é Epstein. É o silogismo de quem aprendeu a raciocinar vendo reels de trinta segundos. O problema não é que a conclusão seja falsa, o problema é que a conclusão não deriva das premissas por nenhum caminho que um ser humano adulto pudesse chamar de pensamento.

Melania Trump negou qualquer ligação com Epstein. Foi essa negação que provocou a modelo. Pense no absurdo: uma mulher nega uma acusação e isso, por si só, é tratado como provocação suficiente para ameaças públicas. A negação virou o crime. Neste universo mental, protestar a própria inocência já é prova de culpa, o que é o exato oposto do que civilizações levaram milênios para construir como princípio jurídico básico. Quando a presunção de inocência some, o que sobra não é justiça mais rigorosa, é linchamento com boa consciência.

Mas o capítulo mais revelador não é a postagem, é o apagamento. A bravura digital tem uma vida útil proporcional à ausência de consequências reais. Enquanto parece que o post vai render curtidas e retweets de companheiros de fúria, a coragem é inesgotável. No momento em que o mundo real bate na porta, seja na forma de advogados, de repórceres ou simplesmente do constrangimento público, a heroína some com a velocidade de quem nunca acreditou de verdade no que disse. Plutarco descreveu soldados assim há dois mil anos: os que gritam mais alto antes da batalha e desaparecem primeiro na poeira da retirada. A plataforma mudou, a natureza humana não.

O ponto que a imprensa de costumes prefere não tocar é este: existe um ecossistema inteiro que produz e financia esse tipo de comportamento. Não financeiro, necessariamente, mas atencional e moral. Cada vez que uma publicação de mídia republica esse tipo de episódio como se fosse notícia política relevante, está dizendo ao próximo Amanda Ungaro que o caminho para aparecer no noticiário é fazer exatamente isso. O incentivo está posto. O espetáculo se retroalimenta. A modelo apagou os posts, mas o Poder360 garantiu que ninguém esquecesse, o que significa que o apagamento foi apenas o ato dois do mesmo show. A penitência pública que não custa nada e ainda rende cobertura.

O episódio vai ser esquecido em quarenta e oito horas, substituído por outra indignação de passarela, outro grito apagado, outro ciclo de fúria e recuo que não deixa rastro nenhum além do desgaste coletivo da capacidade de distinguir o que importa do que não importa. Esta é a função real do ruído: não informar, não convencer, não transformar, apenas exaurir. E nessa corrida de exaustão, quem perde primeiro é sempre aquele que ainda acredita que palavras têm peso e que ameaças públicas são coisas sérias, não figurinhas para colecionar no feed.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.