O nome é Zhou Xianwang, e a cidade é Wuhan. O leitor certamente se lembra: foi ali que o mundo começou a desmoronar no início de 2020. Pois bem, enquanto hospitais improvisados eram erguidos às pressas e milhões de chineses eram literalmente soldados dentro de seus apartamentos, o prefeito da cidade supostamente recebia propinas milionárias. A notícia não deveria surpreender ninguém que tenha prestado atenção mínima à natureza de qualquer governo, mas surpreende especialmente pouco quando se trata do Partido Comunista Chinês, essa máquina extraordinária de converter miséria coletiva em fortuna privada para os que sentam à mesa certa.

A pergunta que importa nunca é se houve corrupção, porque corrupção é o estado natural de todo arranjo em que um grupo de pessoas detém poder coercitivo sobre outro. A pergunta que importa é: por que agora? O Partido não investiga seus quadros por amor à justiça. O Partido investiga seus quadros quando eles deixam de ser úteis, quando a facção rival ganha força, ou quando é preciso oferecer uma cabeça ao público para que ninguém olhe para as outras cabeças que permanecem confortavelmente sobre seus pescoços. Zhou Xianwang não caiu porque roubou. Caiu porque alguém acima dele decidiu que era hora de cair. Na China, como em qualquer autocracia que se preze, a lei é uma arma, não um princípio. Ela aponta para onde o poder manda apontar.

Há algo de profundamente revelador no fato de que a mesma máquina estatal que censurou médicos, escondeu dados, silenciou jornalistas e exportou uma pandemia para o resto do planeta agora se apresente como guardiã da moralidade pública ao processar um de seus próprios operadores. É o incendiário vestindo o capacete de bombeiro. O governo chinês quer que o mundo acredite que o problema era Zhou, não o sistema que o criou, o promoveu e o manteve no cargo durante a maior catástrofe de saúde pública em cem anos. É como se a máfia processasse um dos seus capos por sonegação fiscal e esperasse aplausos pela integridade institucional.

E a pena de morte, vejam vocês. O Estado que pode matar seus cidadãos por corrupção é o mesmo Estado que produz a corrupção como subproduto inevitável de sua própria existência. Onde há monopólio do poder, há mercado negro de favores. Onde há controle centralizado de recursos, há quem venda acesso a esses recursos. O suborno não é um defeito do sistema; é o sistema funcionando. A diferença entre um burocrata honesto e um burocrata corrupto numa ditadura é apenas que o honesto ainda não recebeu a oferta certa ou ainda não ficou tempo suficiente no cargo. Condenar Zhou à morte seria como guilhotinar o termômetro porque a febre é alta.

O que ninguém vai perguntar, porque ninguém nunca pergunta, é quanto dinheiro público foi desviado durante a pandemia não apenas em Wuhan, mas em cada capital de cada país que usou a crise como pretexto para abrir as torneiras do Tesouro. Wuhan é apenas o caso mais grotesco porque combina a tragédia sanitária com a farsa judicial de um regime que mata para manter a aparência de que não tolera o que ele próprio engendra. Mas o padrão é universal: toda emergência é uma oportunidade de transferência de riqueza do contribuinte para o bolso de quem controla o aparato estatal. Pandemia, guerra, crise climática, o pretexto muda, o mecanismo é sempre o mesmo. Alguém paga e alguém recebe. Em Wuhan, quem pagou foram os mortos, os trancados, os censurados. Quem recebeu, ao que parece, foi o prefeito. E quem vai decidir seu destino é o mesmo partido que tornou tudo isso possível. Justiça, na boca de um governo totalitário, é apenas outra palavra para conveniência política.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.