Existe algo de fascinante na desfaçatez de um burocrata que leva a mulher para escolher imóvel de luxo como quem vai ao shopping decidir entre sapatos. Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília, fazia exatamente isso. Segundo a Polícia Federal, o sujeito recebia de Daniel Vorcaro, dono do banco Master, nada menos que seis imóveis como pagamento por serviços prestados. Serviços que, convenhamos, não constam em nenhum contrato registrado em cartório. O valor já desembolsado chega a R$ 74 milhões. Setenta e quatro milhões. Repita o número em voz alta para sentir o gosto metálico da coisa. É dinheiro suficiente para construir escolas, hospitais, estradas. Mas escola não tem suíte master com vista para o lago.

A mecânica é de uma simplicidade quase ofensiva à inteligência. Um banco estatal, alimentado por dinheiro público, é presidido por um sujeito que decide, com caneta e carimbo, o destino de bilhões. Do outro lado da mesa senta um banqueiro privado que precisa de decisões favoráveis para prosperar. O que acontece entre os dois não é mistério para ninguém que tenha passado da segunda série. O banqueiro paga, o presidente do banco estatal entrega. O contribuinte, esse personagem sempre presente e nunca consultado, financia a festa sem ser convidado. A propina não sai do nada. Sai de operações que só são possíveis porque existe um banco estatal com poder de alocar recursos captados compulsoriamente. Tire o banco estatal da equação e o esquema evapora como orvalho ao meio-dia.

Note a sofisticação do arranjo. Não se trata de mala de dinheiro entregue em estacionamento, como nos velhos tempos. Imóveis de luxo são ativos que se valorizam, que se herdam, que se escondem em nome de laranjas e empresas de fachada. A esposa do ex-presidente visitava os imóveis pessoalmente, escolhia acabamento, aprovava localização. É a corrupção com tour guiado, a propina com arquiteto de interiores. O crime evoluiu. A impunidade, essa, permanece fiel às suas origens.

Quem se espanta com o caso ou nunca prestou atenção ou finge não prestar. Toda vez que o Estado opera um banco, uma empresa, uma agência, cria-se automaticamente um balcão de negócios onde o poder político se converte em vantagem privada. Não é defeito do sistema. É o sistema funcionando como foi desenhado para funcionar. O BRB existe, em tese, para servir ao povo do Distrito Federal. Na prática, serve como trampolim patrimonial para quem senta na cadeira certa. E sempre haverá um Vorcaro disposto a pagar o ingresso, porque o retorno sobre o investimento em corrupção é imbatível. Nenhuma aplicação no mercado financeiro rende tanto quanto um presidente de banco estatal no bolso.

O mais revelador, porém, não é o crime em si, mas a reação. Quando casos assim explodem, o coro dos indignados pede mais regulação, mais fiscalização, mais controle. Ou seja, pede mais Estado para resolver um problema criado pelo próprio Estado. É como pedir ao incendiário que chefire o corpo de bombeiros. A solução verdadeira ninguém quer ouvir, porque ela implica reduzir o tamanho do butim disponível, e há gente demais vivendo desse butim. Enquanto existirem bancos estatais, haverá presidentes de bancos estatais colecionando mansões. Enquanto o dinheiro do contribuinte for tratado como recurso sem dono, sempre aparecerá alguém para lhe dar destinação bem concreta, bem pessoal, bem mobiliada. R$ 74 milhões. Seis imóveis. Uma esposa fazendo visita técnica. O Estado brasileiro, senhoras e senhores, em pleno funcionamento.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.