Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília, passou de operador discreto a possível cantor da delegacia. Preso na quarta fase da Operação Compliance Zero, acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, ele agora avalia o velho dilema dos que serviram ao poder e foram descartados pelo poder: ficar calado e apodrecer sozinho ou abrir o bico e levar a turma toda junto. A Polícia Federal, claro, está ali com o microfone na mão, sorrindo o sorriso paciente de quem já viu esse filme cem vezes.
Convém lembrar do que estamos falando. O BRB não é um banco qualquer; é um banco público, controlado pelo governo do Distrito Federal, ou seja, sustentado pelo bolso do contribuinte que paga IPTU em Taguatinga e ICMS em Ceilândia. Quando se diz que houve desvio, lavagem, propina, não se está falando de prejuízo de acionista de Wall Street, está se falando de dinheiro arrancado, no grito do imposto, da padaria do bairro e do salário do professor. Banco estatal é, por construção, uma maquininha de transformar tributo em favor político, e quem nega isso ainda acredita em coelho da Páscoa.
O esquema, segundo a investigação, tinha a elegância barroca de sempre: ocultação patrimonial, intermediários, contratos de fachada, a coreografia clássica que qualquer estudante de primeiro período de direito penal econômico reconhece de olhos fechados. Não há nada de novo aqui, nem haverá. Desde que existe Estado existe a tentação irresistível de transformar o cofre alheio em cofre próprio, e desde que existe banco oficial existe a versão moderna dessa tentação, agora com planilha, compliance officer e auditoria que assina embaixo desde que receba o convite para o coquetel de fim de ano.
O detalhe saboroso é o nome da operação: Compliance Zero. Há uma honestidade brutal nesse batismo, quase poética. Compliance, em tese, é o conjunto de procedimentos que impediria exatamente o tipo de coisa que aconteceu. Que a polícia tenha que batizar a investigação justamente assim é a confissão silenciosa de que toda a parafernália regulatória, todas as comissões, todos os comitês de ética, toda a indústria milionária de relatórios em papel reciclado, serviram para coisa nenhuma. Pagamos a fortuna do compliance e levamos o zero. Bom negócio, não?
Agora vem a parte interessante, a única que de fato importa. Se Paulo Henrique decidir falar, a pergunta que vale ouro é uma só: para onde ia o dinheiro que saía do banco? Ninguém monta operação dessa escala para enriquecer apenas o presidente do banco; presidente de banco estatal é peão de um tabuleiro maior, e o tabuleiro tem governadores, secretários, parlamentares, padrinhos políticos, financiadores de campanha, gente cujo nome o leitor já viu sorrindo em horário eleitoral gratuito jurando defender o povo do Distrito Federal. A delação, se vier, vai ser menos sobre um banqueiro caído e mais sobre o organograma real do poder, aquele que não aparece em nenhum site oficial.
O que se vê, no fim, é o de sempre. A coisa pública vira coisa privada de quem manda, o contribuinte é o otário recorrente da equação, e quando alguém é pego basta um pouco de pressão para descobrir que o esquema tinha mais convidados do que o jantar do casamento real. Resta torcer para que o ex-presidente do BRB esteja com a memória aguçada e a conta corrente sentindo a falta do salário. A Justiça brasileira, infelizmente, é como peneira velha, retém pouco. Mas vez ou outra, quando o peso é grande o suficiente, alguma coisa fica. Veremos quem cai junto, e veremos, sobretudo, quem nesta capital construída para ser símbolo de um Brasil novo continua tocando, com mão firme, a mesma orquestra antiga da pilhagem.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.