Dois mortos. Foi esse o saldo da escavação que a Sabesp empurrou no Jaguaré, na zona oeste de São Paulo, depois que uma máquina da obra rasgou uma tubulação de gás e transformou um quarteirão inteiro num experimento involuntário de termodinâmica urbana. O governador, terno alinhado e voz grave, confirmou a segunda vítima como quem informa o placar de um jogo desinteressante. Não foi acidente de trânsito, não foi raio, não foi obra do destino: foi uma empresa, com nome, CNPJ e diretoria remunerada, abrindo cova no asfalto público.
Convém perguntar a coisa mais elementar, aquela que ninguém na coletiva quer responder: quem paga e quem recebe? Paga o morador do Jaguaré, que viu a casa virar churrasqueira a céu aberto. Paga o consumidor paulista, que financia a tarifa de água com a regularidade de um dízimo medieval. Paga o contribuinte, sempre ele, garantidor universal de toda trapalhada com timbre oficial. E recebem, do outro lado do balcão, os contratados da obra, os fornecedores de engenharia barata, os indicados políticos que enfeitam conselhos de estatal, e agora, na sequência natural do circo, os advogados que vão administrar indenizações pagas, claro, pelo mesmo pagador de sempre.
Há uma encenação cansativa nesses episódios. Toda vez que um monopólio estatal ou estatal disfarçado de privado produz cadáveres, a sociedade é convidada a tratar o evento como fatalidade meteorológica, como se tubulação de gás explodisse sozinha por capricho da física. Não explode. Tubulação de gás é objeto inerte, obediente, previsível. O que falha é o protocolo, a fiscalização, a cadeia de responsabilidade que se dissolve no instante em que o crachá é estatal. Numa empresa privada de verdade, exposta à concorrência e à falência, dois mortos significam processo, indenização ruinosa, possível bancarrota e dono na cadeia. Numa estatal, significam nota oficial, comissão de sindicância, e a vida segue, porque o dinheiro do prejuízo não sai do bolso de quem decidiu.
A Sabesp, recém maquiada de privatizada, ainda carrega no DNA o vício congênito de toda empresa que cresceu sob o guarda chuva do Estado: a certeza tranquila de que existe um cofre infinito do qual se pode sacar para cobrir desastre. É a mesma lógica que, séculos atrás, levava o monarca a contratar guerras com ouro alheio e enterrar soldados com indiferença contábil. Quem decide não paga, quem paga não decide, e o resultado é exatamente o que se vê no Jaguaré: pressa na obra, frouxidão no procedimento, e o gás encontrando faísca antes que o engenheiro encontrasse vergonha.
O governador, por sua vez, cumpre o papel litúrgico da hora. Aparece, lamenta, promete apurar, dá entrevista, agradece aos bombeiros e desaparece até a próxima tragédia. É o papel ensaiado de toda autoridade que comanda nominalmente o que não controla efetivamente. A apuração será conduzida pela própria estrutura que falhou, com servidores pagos pela mesma fonte que paga a empresa que matou, e a conclusão, escrita em linguagem técnica suficientemente nebulosa, vai apontar erro de procedimento operacional, jamais erro de modelo. Modelo, jamais. Modelo é sagrado.
Enquanto isso, duas famílias enterram parentes que saíram de casa achando que voltavam para o jantar. E o resto da cidade engole a lição não dita: que a tarifa paga, o imposto paga, a indenização paga, o funeral paga, e o único que nunca paga é quem desenhou o arranjo. Quem paga e quem recebe, no fim, é a única pergunta que importa. O resto é fumaça, e dessa, infelizmente, o Jaguaré já teve demais.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.