O MIS de São Paulo abre na quinta-feira uma exposição dedicada a Janis Joplin, reunindo mais de 300 peças originais da cantora que morreu em 1970, aos 27 anos, depois de viver como se cada dia fosse uma afronta pessoal à ordem vigente. A notícia é apresentada com aquele verniz de sofisticação cultural que as instituições públicas brasileiras adoram vestir quando precisam justificar a própria existência. Ninguém pergunta quanto a montagem custou, de qual rubrica orçamentária saiu, que empresa de cenografia foi contratada, se houve licitação ou se foi "inexigibilidade" (aquele eufemismo jurídico para comprar de quem se quer sem dar satisfação a ninguém). O contribuinte paulista, que já paga o ICMS mais voraz do país, financia o prédio, a equipe, a manutenção, a luz, o ar-condicionado, a segurança e o cafezinho do vernissage, e depois, se quiser ver a mostra, paga ingresso. É o modelo perfeito de generosidade com o bolso alheio.
Janis Joplin é, sem dúvida, um caso fascinante da história da música. Uma mulher que saiu de Port Arthur, Texas, cidade que a rejeitou com gosto, e conquistou o mundo cantando blues com uma intensidade que fazia homens crescidos chorarem. Ela não pediu subsídio do governo americano para gravar "Me and Bobby McGee". Não precisou de edital da National Endowment for the Arts para subir no palco de Monterey em 1967 e arrancar a alma de quem estava assistindo. A arte que vale alguma coisa nunca precisou de burocrata intermediário, e a trajetória de Joplin é prova cabal disso. Ela viveu do mercado, dos discos vendidos, dos ingressos comprados por gente que escolheu livremente gastar seu dinheiro para ouvi-la cantar. A ironia de transformá-la em peça de museu estatal é tão grossa que dispensa comentário, mas eu comento mesmo assim.
O MIS é um órgão da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo. "Economia Criativa" é uma daquelas expressões que o aparato estatal inventou para dar ar de modernidade ao velho hábito de gastar dinheiro público com coisas que o mercado faria melhor se o deixassem em paz. A lógica é circular e perversa: o Estado tributa a renda de artistas, produtores e empreendedores culturais, depois devolve uma fração desse dinheiro na forma de "fomento", exigindo em troca subserviência burocrática, relatórios, prestações de contas e, sobretudo, gratidão. Quem decide o que merece "fomento" não é o público, que vota com a carteira toda vez que compra um ingresso ou um disco, mas uma casta de curadores, gestores e comissões cujo único talento comprovado é a arte de existir dentro do organograma.
Se a exposição é boa, se as 300 peças são genuinamente interessantes, se o acervo veio emprestado da família Joplin ou de colecionadores privados, nada disso muda a pergunta fundamental: por que o Estado precisa ser o intermediário? Existem galerias privadas, centros culturais mantidos por fundações, espaços comerciais que vivem de bilheteria e patrocínio voluntário. Nenhum deles precisa enfiar a mão no bolso de quem nunca ouviu falar de Janis Joplin para montar uma vitrine. O sujeito que trabalha doze horas por dia numa padaria em Itaquera e paga ICMS sobre cada saco de farinha que compra está, quer saiba ou não, financiando a contemplação estética da classe média ilustrada dos Jardins. Redistribuição de renda às avessas, como de costume.
O mais revelador, porém, é o silêncio. Nenhuma matéria sobre a exposição menciona valores. Quanto custou trazer o acervo? Quanto o MIS gasta por ano? Qual o custo por visitante? Essas perguntas são tratadas como grosseria, como se cultura fosse sagrada demais para se submeter à aritmética. Mas tudo o que é sagrado demais para ser questionado geralmente esconde alguém que não quer ser descoberto. A cultura subsidiada é o último refúgio dos que vivem de imposto sem querer admitir. Janis Joplin, que passou a vida inteira recusando qualquer forma de domesticação, merecia homenagem melhor do que virar pretexto para o Estado justificar mais uma linha no orçamento. Mas, convenhamos, ela já não pode reclamar, e os que poderiam estão ocupados demais pagando a conta.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.