A barata é um animal extraordinário. Resistiu a extinções em massa, sobreviveu a condições que liquidaram criaturas muito mais sofisticadas, e hoje divide o seu apartamento com você sem pagar condomínio. Isso não é metáfora, é zoologia. O que é metáfora, e uma bastante cruel, é o fato de que um inseto que existia antes dos dinossauros continua prosperando no século XXI enquanto o cidadão brasileiro, dotado de razão, linguagem e oposição entre o polegar e os demais dedos, não sabe eliminá-lo sem recorrer a um produto de prateleira que custa o equivalente a dois quilos de carne e que, na metade dos casos, não resolve nada.

O ponto de partida aqui é simples e concreto: baratas e formigas não são problema exclusivo de ambientes sujos. Aparecem onde há calor, umidade e qualquer fresta de acesso, o que na prática significa que aparecem em todo lugar onde humanos habitam, independente da renda, do bairro ou da frequência com que se passa o pano no chão. E quando aparecem, a velocidade de multiplicação é tal que o problema que hoje é uma barata debaixo da geladeira é amanhã uma colônia estruturada com divisão de trabalho melhor organizada do que boa parte das secretarias municipais deste país. A diferença é que as baratas, ao menos, não cobram IPTU.

Dito isso, a questão que ninguém faz em voz alta é a seguinte: por que uma civilização que chegou à Lua, sequenciou o genoma humano e inventou o delivery de sushi às três da manhã ainda trata a barata doméstica como se fosse um problema que exige intervenção especializada e produto registrado? A resposta não está na entomologia, está na economia política. Existe um setor inteiro, com faturamento na casa dos bilhões anuais no Brasil, dedicado a vender a ideia de que o combate a pragas domésticas é uma atividade técnica, complexa, que exige produto certificado, dedetizador credenciado e, preferencialmente, contrato mensal de manutenção. Rastrear a origem desse consenso até os conselhos de regulação, as câmaras técnicas e os pareceres normativos é um exercício que não demora mais de vinte minutos, e o que se encontra no fim do caminho é sempre o mesmo: a mão do produtor dentro do bolso do regulador, ambos com a cara mais séria do mundo.

A alternativa que realmente funciona, e que qualquer avó com acesso a uma despensa razoável dominava antes que o Estado decidisse regulamentar até o modo correto de viver dentro da própria casa, é feita de ingredientes que você já tem: bicarbonato de sódio, açúcar, ácido bórico, vinagre. Não é folclore, não é mito de internet, é química básica que qualquer livro escolar descreve sem romantismo. A barata ingere a mistura, o bicarbonato reage com a acidez do estômago do animal, e o problema se resolve sem que você precise telefonar para ninguém, assinar nenhum contrato e sem que nenhum funcionário de macacão entre na sua casa com um produto cujo princípio ativo você não consegue pronunciar. O método funciona, é rápido e custa literalmente nada. Justamente por isso, você nunca vai ver propaganda dele no horário nobre.

Há um princípio antigo, anterior a qualquer escola econômica moderna, que diz que o homem prudente é aquele que julga as coisas pelo que elas são, não pelo que lhe dizem que são. Aplicado à questão da barata, o princípio funciona assim: se uma solução é eficaz, acessível, sem efeitos colaterais sérios e está ao alcance de qualquer pessoa com um real na despensa, e mesmo assim essa solução não é divulgada, não é recomendada, não aparece nas embalagens dos produtos concorrentes e não consta dos manuais oficiais de saúde pública, a pergunta correta não é "será que funciona mesmo?". A pergunta correta é "a quem interessa que você não saiba disso?". Feita essa pergunta com seriedade, o silêncio que se segue é mais eloquente do que qualquer resposta.

O cidadão que aprende a resolver o próprio problema com os próprios recursos é um cidadão que não depende. E o cidadão que não depende é, do ponto de vista de toda uma arquitetura de poder construída sobre a dependência organizada, um cidadão inconveniente. A barata, ironicamente, entende isso melhor do que a maioria dos eleitores: ela não esperou nenhum programa governamental para sobreviver. Adaptou-se, encontrou o caminho e seguiu em frente. Talvez o problema não seja a barata. Talvez o problema seja que, diferente dela, boa parte de nós ainda está esperando alguém chegar com o pulverizador.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.