As pesquisas de boca de urna no Peru apontam Keiko Fujimori como favorita à presidência, com promessas que incluem expulsão de imigrantes e realinhamento com os Estados Unidos. Registre-se o fato sem adorno: a filha de Alberto Fujimori, o homem que governou o Peru com mão de ferro nos anos noventa, que foi preso por corrupção e violações de direitos humanos, que recebeu indulto polêmico em 2017, está a um passo de governar o mesmo país que seu pai deixou como herança maldita. A própria Keiko já foi detida preventivamente mais de uma vez, acusada de lavagem de dinheiro e financiamento ilegal de campanha. O Peru, em suma, está prestes a eleger para consertar a bagunça exatamente o sobrenome que ajudou a fazer a bagunça. Há uma perversidade quase grega nessa narrativa, o tipo de situação que os antigos chamariam de destino e que os modernos preferem chamar de pesquisa eleitoral.

A promessa de expulsar imigrantes é o truque mais velho do manual do poder: identifique um bode expiatório visível, externo, preferencialmente pobre e de outra língua, e ofereça ao eleitorado a catarse de vê-lo partir. Não importa que a Venezuela, de onde vieram centenas de milhares de refugiados que o Peru absorveu na última década, tenha produzido essa diáspora por culpa exatamente do tipo de socialismo estatizante que destruiu economias inteiras ao longo do século vinte. Não importa que expulsar trabalhadores não cria empregos, que fechar fronteiras não abre mercados, que deportar famílias não reforma o Estado falido que tornou o Peru incapaz de oferecer segurança, justiça e prosperidade aos seus próprios nacionais. A lógica do eleitoral dispensa a lógica do real. O Estado prometeu tudo, entregou miséria, e a solução que o eleitor encontra é pedir ao mesmo Estado mais poder ainda para resolver o que ele mesmo criou. É o ciclo perfeito da dependência política, retroalimentado a cada geração.

Aproximar-se dos Estados Unidos é, no contexto latino-americano, a sinalização de que o candidato não pretende abraçar Caracas, Havana ou Pequim como modelos civilizatórios, o que é, convenhamos, um piso mínimo de decência geopolítica que muitos países da região sequer conseguem atingir. Mas convém não confundir alinhamento com Washington com compromisso com a liberdade econômica real. Os Estados Unidos exportam, faz décadas, não apenas mercados e democracia formal, mas também burocracia, regulação, guerra às drogas ruinosa e programas de ajuda que tendem a criar exatamente a dependência que prometem eliminar. O Peru já sabe o que é receber ajuda internacional. Sabe o que são condicionalidades do FMI. Sabe o que é ter a economia gerida por recomendações de organismos cuja burocracia nunca sentiu a fome que prescreve dietas para outros. Alinhar-se com Washington pode ser melhor do que alinhar-se com Moscou, o que é certamente verdade, mas não é, por si só, uma política econômica.

O que o Peru precisa, e o que nenhum candidato com chances reais de eleição está disposto a dizer, é de um Estado radicalmente menor, mais honesto e menos caro. Não de um Estado que expulsa imigrantes com mais eficiência, nem de um Estado que se alinha com potências estrangeiras com mais entusiasmo, mas de um Estado que para de roubar, que para de regular o que não precisa ser regulado, que deixa o cidadão produzir, trocar e acumular sem pagar pedágio para uma classe política que vive do orçamento como o parasita vive do hospedeiro. O Peru tem uma das economias mais ricas em recursos naturais da América do Sul. Tem minerais, tem agricultura, tem litoral, tem potencial turístico imenso. Tem também uma das burocracias mais corruptas e ineficientes do continente, e essa não é coincidência, é causalidade. A riqueza natural existe apesar do Estado, não por causa dele, e o Estado existe para extrair essa riqueza, não para protegê-la.

Keiko Fujimori pode vencer. Pode até governar com competência relativa, que no Peru pós-Castillo é um standard baixo o bastante para qualquer adulto consciente atingir. Mas o problema estrutural permanecerá: um Estado que promete demais, entrega de menos e cobra em dobro. A filha do caudilho talvez consiga estabilizar a temperatura da febre, mas a infecção continuará lá, no centro do sistema, no lugar onde o dinheiro público entra e desaparece com a regularidade das marés. Cada geração peruana acorda diante do mesmo enigma: por que um país tão rico produz tanta pobreza? E cada geração, exausta demais para investigar a resposta verdadeira, elege alguém que promete que desta vez será diferente. Desta vez, com mão firme. Desta vez, com expulsão dos de fora. Desta vez, com o nome certo. A tragédia não está na escolha errada. Está em que a escolha errada é a única que o sistema oferece.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.