A Ferrari, aquela mesma fábrica italiana que construiu mito vendendo o ronco do motor V12 como se fosse aria de ópera, acaba de apresentar o Luce, seu primeiro carro totalmente elétrico, por singelos três milhões de reais. O leitor desavisado lê a manchete e pensa: que me importa, nunca vou comprar um Ferrari mesmo. Engano fatal. Você já está pagando por ele, ainda que jamais sente no banco de couro costurado à mão em Modena. E é justamente aí que mora a piada que ninguém quer contar.
Convém lembrar o roteiro. Há cerca de uma década, burocratas europeus, sentados em gabinetes climatizados de Bruxelas, decretaram que o motor a combustão era o novo demônio, o bezerro de ouro a ser despedaçado em nome da nova religião climática. Multas bilionárias para quem ousasse vender carros que cheirassem a gasolina depois de tal data, créditos de carbono trocados como indulgências medievais, subsídios pesados para quem se ajoelhasse diante do altar elétrico. A Ferrari, que vivia do barulho e da fumaça, ouviu o recado. Não por convicção ecológica, óbvio. Por sobrevivência regulatória. Quando o rei decreta que todos devem usar peruca, até o careca corre à perucaria.
Então observe a engenharia financeira do esquema, porque ela é tão elegante quanto o próprio carro. O bilionário compra o Luce e, sendo elétrico, gera créditos de emissão que a montadora usa para abater multas sobre a frota inteira ou revende a concorrentes atrasados na conversão. O cliente rico ainda recebe, em muitos países europeus, isenção fiscal, desconto em pedágio, vaga preferencial em zona verde e o privilégio moral de circular por avenidas onde o plebeu com seu Fiat usado já foi proibido de entrar. O contribuinte comum, esse coitado, paga o imposto que financia a infraestrutura de recarga, banca o subsídio à bateria importada da China e ainda escuta, no telejornal das oito, que está salvando o planeta. Salvando, no caso, o balanço trimestral da Ferrari.
Há um detalhe delicioso de coerência interna, daqueles que desmontam o discurso sem precisar de muito esforço. Se o objetivo confessado da agenda verde é reduzir emissões, qual o sentido lógico de subsidiar um carro de luxo que será rodado quinhentos quilômetros por ano, guardado em garagem climatizada de mansão em Mônaco, exibido em encontros de colecionadores? A pegada de carbono de fabricar a bateria desse brinquedo, somada à mineração de lítio em condições medievais no Congo e na Bolívia, supera com folga a emissão de cinquenta Corollas rodando dez anos seguidos. Mas o silogismo é simples e implacável: se a política verde fosse sobre clima, o Luce não existiria; o Luce existe e é celebrado; logo, a política verde nunca foi sobre clima.
O que ela sempre foi, e segue sendo, é uma reorganização monumental de renda dos pobres para os ricos sob o pretexto moral mais inatacável que a propaganda contemporânea já produziu. Ninguém ousa criticar quem está, supostamente, salvando geleiras. E enquanto o cidadão de classe média na periferia de São Paulo paga IPVA majorado pelo seu carro a álcool quinze anos de uso, lê notícia sobre proibição futura de combustão, ouve que vai precisar trocar de veículo em breve por motivos ecológicos, o sujeito que tem capital para um Ferrari elétrico ganha aplauso, isenção e capa de revista. Há séculos, vendiam-se indulgências em pergaminho para garantir vaga no céu. Hoje vendem-se em alumínio escovado, com volante em fibra de carbono e bateria de íon-lítio. O negócio é o mesmo. Mudou apenas o couro do banco.
Reste perguntar, como sempre se deve perguntar diante de qualquer novidade aplaudida em uníssono pela imprensa, pelos governos e pelas corporações ao mesmo tempo: quem paga e quem recebe? O contribuinte europeu paga, o consumidor de energia paga, o trabalhador congolês paga com pulmão e infância, o motorista comum paga com restrição de circulação e imposto crescente. Recebe a Ferrari, recebem os fundos verdes que financiaram a transição, recebem os bilionários que ganham status de eco-heróis dirigindo carros silenciosos. O barulho do motor V12 morreu. O barulho do dinheiro mudando de mão segue ensurdecedor, só que agora ninguém quer escutar.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.