Existe uma coreografia clássica no capitalismo de compadres brasileiro, e ela tem poucos passos, todos previsíveis. Primeiro, uma instituição ligada ao poder público toma decisões financeiras que nenhum gestor privado com capital próprio em jogo tomaria jamais. Segundo, as perdas aparecem. Terceiro, alguém vai buscar dinheiro em algum fundo coletivo, em alguma garantia sistêmica, em algum mecanismo que, por definição, socializa o prejuízo entre quem não participou da festa. O Banco de Brasília chegou ao terceiro passo.
O BRB não é um banco qualquer. É o banco do Governo do Distrito Federal, instrumento financeiro do poder político local, a extensão em forma de agência bancária do aparato estatal de Brasília. Quando esse banco decide se expor a operações irregulares do Banco Master, a pergunta que qualquer observador com dois neurônios ativos deve fazer não é técnica. É política. Quem autorizou? Quem se beneficiou? Quem recebeu o que, em troca de quê? O dinheiro de um banco público não tem dono anônimo: tem rosto, tem CPF, tem eleitor, tem contribuinte.
O Fundo Garantidor de Créditos, por sua vez, é composto por contribuições das instituições financeiras privadas do país, que por sua vez repassam esse custo para seus correntistas e tomadores de crédito na forma de spread. Em linguagem direta: o fundo é abastecido, em última instância, pelo cidadão comum que tem conta em banco. Pedir ao FGC um empréstimo de salvamento para o BRB é pedir que o trabalhador de São Paulo subsidie a má gestão do banco do governador de Brasília. Trocando em miúdos, é o arranjo de sempre: os que não decidiram nada pagam a conta dos que decidiram tudo.
A recusa do FGC em liberar o socorro antes de ver as contas não é rigor inédito. É o mínimo que se exige de qualquer credor com um grão de responsabilidade fiduciária. O que revela que essa exigência básica seja notícia é o nível de infantilização a que chegou a relação entre o Estado brasileiro e os mecanismos de garantia do sistema financeiro. Acostumou-se tanto a pular essa etapa, a liberar o dinheiro antes do diagnóstico, a tapar o buraco antes de medir a profundidade, que pedir as contas virou manchete. Uma manchete constrangedora para todo mundo, exceto para o FGC, que fez a coisa óbvia.
O Banco Master, de sua parte, já está em outro capítulo desta história. As operações irregulares que contaminaram o BRB fazem parte de um modelo que consistia, em síntese, em vender ativos de crédito pelo valor de face quando o valor real era substancialmente menor, distribuindo tempo comprado no lugar de solidez financeira. Qualquer gestor que comprou essa mercadoria sabendo o que comprava tem perguntas sérias a responder. Qualquer gestor que comprou sem saber deveria ter sabido. Nos dois casos, o resultado é o mesmo: a conta chegou, e a tentativa agora é fazer com que ela chegue no endereço errado.
O Estado nunca paga suas próprias contas. Isso não é fatalismo, é observação histórica. Quando um banco privado quebra, os acionistas perdem. Quando um banco estatal quebra, o contribuinte paga. A diferença é elegante na sua crueldade: no primeiro caso, quem correu o risco arca com a consequência; no segundo caso, quem não correu risco nenhum é quem arca com tudo. O FGC fez bem em parar e perguntar o tamanho do buraco. Deveria também perguntar quem o cavou, com que pá e sob ordem de quem. Provavelmente não vai perguntar. Mas seria justo.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.