A cena é digna de ópera bufa. Os mandarins do futebol mundial vão sentar à mesa em Vancouver, na véspera do septuagésimo sexto congresso da entidade, para deliberar sobre o aumento da premiação da próxima Copa do Mundo. Traduzindo do dialeto burocrático para o português dos mortais: as federações nacionais, que viajam de jatinho e hospedam suas comitivas em hotéis cinco estrelas, querem uma fatia maior do bolo. E o bolo, convém lembrar, não é assado por nenhum desses senhores. É assado pelo torcedor que paga ingresso, pela operadora que paga direito de transmissão, pelo patrocinador que repassa o custo no preço do refrigerante e da chuteira, e, no caso brasileiro, pelo contribuinte que banca isenção fiscal sempre que o circo monta sua tenda no quintal alheio.
Convém olhar o arranjo de frente, sem cerimônia. A entidade global é um monopólio. Não existe concorrente, não existe Copa rival, não existe outra federação que possa organizar o mesmo torneio. Quem manda no calendário, manda no jogo, manda nas regras, manda no preço. E quem detém monopólio costuma fazer o que monopolista sempre faz desde que o mundo é mundo: cobra caro, paga pouco a quem entrega o produto, e distribui generosamente entre os comparsas que sustentam o esquema. As federações nacionais são justamente esses comparsas. Elas validam o cartel, elegem os caciques, recebem repasses e, em troca, fazem cara de paisagem quando o assunto é transparência.
O detalhe sórdido é que esse pessoal gosta de se apresentar como guardião do esporte, promotor da paz entre os povos, fomentador do desenvolvimento social, e mais um rosário de adjetivos que faria corar até bispo medieval vendendo indulgência. Na prática, é uma confraria que vive de taxar terceiros. Cada centavo de aumento de premiação sai de algum bolso, e nunca sai do bolso de quem decide. Sai do consumidor final, que paga mais caro pela camisa oficial, pelo pacote da TV por assinatura, pelo ingresso revendido a preço de cirurgia cardíaca. A regra é antiga, conhecida desde os tempos em que reis cunhavam moeda com menos prata para financiar guerra: quem está perto do trono come bem, quem está longe paga a conta sem saber.
Existe ainda o capítulo nacional do enredo, que merece atenção redobrada. Toda vez que o torneio se aproxima, governos se desdobram em isenções tributárias, leis especiais, regimes alfandegários de exceção, garantias soberanas que blindam a entidade contra qualquer prejuízo. O contribuinte local, que jamais foi consultado, vira fiador de festa privada. Renúncia fiscal é imposto cobrado pela porta dos fundos, porque o gasto público que deixou de ser coberto por aquela receita será coberto por outra, em geral mais regressiva, em geral pesando sobre quem menos pode. Premiação maior em dólar, conta maior em real. A matemática é essa, e ela não tem vergonha na cara.
O mais saboroso, contudo, é a retórica do aumento. Vão dizer que é para fortalecer o futebol das nações em desenvolvimento, para incentivar o esporte na base, para democratizar a modalidade. Quando a propaganda fica nobre demais, é hora de contar os talheres. Os repasses caem em federações cujas prestações de contas envergonhariam um caixa de boteco, presididas por figuras que se perpetuam no cargo com a tranquilidade de monarcas hereditários. O dinheiro entra, o dinheiro circula, o dinheiro some, e o futebol de base segue jogando em campo de terra batida com trave torta. A solenidade do anúncio em Vancouver serve apenas para envernizar o que é, no osso, uma redistribuição entre coronéis do gramado, com o torcedor pagando a banda e o jogador recebendo migalhas proporcionais ao espetáculo que entrega. Quem paga, paga sempre. Quem recebe, recebe sempre os mesmos.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.