Vivian Wilson, filha trans do sujeito que ora finge ser libertário, ora abocanha contratos federais de bilhões de dólares com a NASA e o Pentágono, apareceu seminua na campanha da Savage X Fenty, marca de lingerie da cantora barbadense que já vale, segundo as listas de sempre, mais de um bilhão de dólares. A peça publicitária foi cuidadosamente lançada às vésperas do Mês do Orgulho, calendário que deixou de ser efeméride para se tornar trimestre fiscal. Dois impérios bilionários se encontram numa foto, e o público é convidado a chamar isso de coragem. Coragem, convém lembrar, é o que faz o soldado raso na trincheira, não a herdeira fotografada em estúdio climatizado por um time de iluminadores que ganham por hora.

Façamos o exercício que ninguém quer fazer, o de seguir o cheiro do dinheiro. A Savage X Fenty é uma operação comercial avaliada na casa dos bilhões, financiada por fundos de private equity e pela LVMH em algum momento da sua história, e que precisa, como toda empresa de lingerie, vender calcinha em escala industrial. Para isso, contratou a face mais cobiçada do mercado simbólico contemporâneo, a do filho rebelde do bilionário rival, transformando rusga familiar em ativo de mídia. O resultado é que cada peça vendida embute uma comissão paga não ao corpo fotografado, mas à narrativa que o cerca. O corpo é o suporte; o produto é a indignação alheia.

E aqui chegamos ao truque mais antigo da feira, aquele em que o vendedor de óleo de cobra grita que o remédio é proibido pelos poderosos justamente para que a multidão compre dois frascos. Vendem como transgressão aquilo que tem patrocínio de multinacional, departamento jurídico, agência de relações públicas e cobertura unânime da imprensa corporativa. Se fosse mesmo subversivo, não estaria estampado na vitrine da Times Square nem ocuparia comercial em horário nobre da Amazon Prime. Subversão de verdade é perseguida, não premiada com cachê. O que se chama hoje de ousadia é simplesmente o conformismo do andar de cima vestido com a roupa de baixo do andar do meio.

Os romanos, quando precisavam manter a plebe distraída do confisco fiscal, ofereciam pão e circo. O circo dos nossos dias troca os gladiadores por modelos, mas a função permanece intacta, a de ocupar o noticiário com pelve e identidade enquanto, nos bastidores, contratos de bilhões são assinados, subsídios verdes são liberados, bancos centrais imprimem moeda e a classe média assalariada vê o aluguel subir vinte por cento ao ano. Enquanto se discute a calcinha da herdeira, ninguém discute por que o pai dela recebe crédito fiscal para fabricar carro elétrico que só rico compra. O espetáculo é a cortina; o roubo é o palco atrás dela.

Há ainda o capítulo aristotélico da farsa, o do silogismo invertido. Dizem que a campanha representa a liberdade individual, mas liberdade individual é justamente o direito de fazer com o próprio corpo o que se quiser sem precisar de aplauso institucional, sem hino de junho, sem desfile patrocinado por banco, sem nota de apoio de embaixada. Quando o ato privado precisa de cerimônia coletiva para existir, deixou de ser liberdade e virou liturgia. E toda liturgia, como se sabe desde que o primeiro xamã percebeu o filão, cobra dízimo. O dízimo, neste caso, é pago em atenção, em conformidade e, sobretudo, no crédito moral que blinda os patrocinadores de qualquer escrutínio sobre o que realmente fazem com o dinheiro público que recebem.

Então fica a pergunta de sempre, a única que importa quando a fumaça do incenso progressista se dissipa. Quem paga? Paga o trabalhador americano via subsídio à indústria do bilionário pai. Paga a consumidora iludida que compra calcinha cara achando que está financiando uma revolução. Paga o contribuinte brasileiro que vê sua moeda derreter enquanto o noticiário discute o que não é da sua conta. E quem recebe? Recebe o bilionário, recebe a bilionária, recebe a agência de marketing, recebe a imprensa que vende a manchete e recebe, sobretudo, o aparato cultural que precisa desses rituais para que ninguém repare no truque mais velho do mundo, o de transformar mercadoria em causa e causa em imposto disfarçado. O rei continua nu, mas agora a roupa invisível é vendida com desconto à vista.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.