Sábado, 18 de abril, Barcelona. O herdeiro de um dos maiores operadores financeiros do planeta posa, sorri, publica no Instagram e frequenta um encontro simpático à esquerda global onde, por mera coincidência do calendário astral, também aparece o presidente da República Federativa do Brasil. A plateia aplaude como se fosse romaria de fiéis diante de relíquia, o filho posta a foto, o correspondente flagra, e os jornais domesticados tratam o caso como mera nota de sociedade. Quem não entendeu o recado é porque nunca estudou como funciona a engrenagem: bilionário não viaja à toa, presidente pobre de terceiro mundo não é recebido por filantropo herdeiro por amor à causa dos pequenos. Existe sempre uma fatura, e alguém sempre assina embaixo.

A mitologia oficial diz que fundações filantrópicas internacionais gastam fortunas do próprio bolso para espalhar democracia, direitos humanos e outras palavras bonitas pelo mundo. A realidade prosaica é bem mais interessante: essas estruturas operam como fundos de investimento político, financiam ONGs, think tanks, universidades, campanhas, movimentos de rua, veículos de imprensa, e colhem dividendos em forma de regulação favorável, mercados abertos, moedas vigiadas e governos dóceis. É o capitalismo de compadrio em escala planetária, vestido de santidade laica, com sede em Nova York e filiais em toda capital onde houver um político disposto a trocar soberania por selfie.

Considere a escada lógica, sem pressa. Primeira premissa: dinheiro grande não se move sem propósito. Segunda premissa: quando herdeiro de patrimônio bilionário procura presidente de país endividado, o valor de troca não é simpatia ideológica, é influência sobre políticas públicas. Conclusão inevitável: o encontro de Barcelona não é fraternidade, é reunião de acionistas. Se o leitor acha que o contribuinte brasileiro, aquele que paga imposto sobre a conta de luz, sobre o arroz, sobre a gasolina e sobre o próprio salário, não vai financiar os compromissos firmados nessa viagem, nunca prestou atenção em como governo opera. Toda cortesia diplomática volta como fatura tributária, pontualmente, sem atraso.

O mais delicioso da cena é a indignação seletiva. Quando um deputado de direita almoça com qualquer empresário que tenha simpatia por pautas liberais, a imprensa monta comissão parlamentar de inquérito no próprio editorial, acusa conluio, promiscuidade, captura, aparelhamento, e desfila especialistas indignados em horário nobre. Quando o chefe do Executivo se reúne em solo europeu com o herdeiro de uma das maiores redes de financiamento político do planeta, o mesmo exército de fiscais da moralidade descobre subitamente uma vocação beneditina para o silêncio contemplativo. Não é incoerência, é método. A régua só mede de um lado; do outro, é régua de pau de mandioca, entorta sozinha.

Há dois séculos um panfletário francês explicava que em toda operação de Estado existe o que se vê e o que não se vê. O que se vê é a foto do encontro, o sorriso ensaiado, o discurso genérico sobre democracia e combate à extrema direita. O que não se vê são os acordos paralelos, as contratações futuras de consultorias, os editais estranhamente redigidos sob medida, as ONGs que receberão repasses via rubricas obscuras do orçamento, os decretos que irão alinhar o Brasil a agendas internacionais decididas por quem jamais foi eleito por brasileiro nenhum. A democracia verdadeira virou figurino de teatro; por trás do pano, o roteiro já vem pronto do camarim de Barcelona.

No fim do baile, a pergunta que importa continua sendo aquela que ninguém quer fazer, porque fazê la é perder convite para próxima festa. Quem pagou a passagem, a hospedagem, o champanhe e o cachê simbólico dessa performance catalã? E quem recebe, efetivamente, os benefícios materiais do arranjo firmado entre o filho do bilionário e o presidente do país mais pobre da América Latina com assento no G20? O contribuinte, esse personagem mudo e pagador eterno, não foi convidado para o brinde, mas vai receber a conta no próximo boleto, na próxima alta da gasolina, na próxima medida provisória assinada às pressas. É sempre assim: o banquete é deles, a louça é sua.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.