Azzam Al-Hayya morreu na noite de 6 de maio, num bombardeio israelense em Gaza. Era o quarto filho de Khalil Al-Hayya, o principal negociador do Hamas, o homem que aparece nas fotos de Doha vestindo terno bem cortado, sentado em poltronas de couro, discutindo cessar-fogo enquanto toma café turco servido em xícara de porcelana. O pai negocia em hotel cinco estrelas no Catar. Os filhos morrem em Gaza. A divisão do trabalho na aristocracia do martírio palestino é assim mesmo: uns oferecem o corpo dos outros à causa, e a própria pele à diplomacia.

Convém olhar com atenção essa anatomia, porque ela se repete há séculos com fidelidade quase litúrgica. Toda revolução, toda guerra santa, toda libertação nacional produziu sua casta de profetas confortáveis, gente que prega o sacrifício total enquanto cuida pessoalmente de não ser sacrificada. Os jacobinos mandavam vizinhos à guilhotina e morriam de velhice em exílios europeus. Os comissários soviéticos enviavam camponeses para Stalingrado e cuidavam de manter a dacha aquecida. A novidade do Hamas é apenas estética: o turbante substituiu o gorro frígio, a câmera de televisão substituiu o panfleto, mas o esquema de incentivos é idêntico. O líder vive porque negocia. O povo morre porque foi convencido de que morrer é vencer.

E aqui entra a pergunta que ninguém faz na imprensa internacional, ocupada demais em escolher entre dois figurinos de comoção: quem paga essa estrutura inteira? O Catar paga a hospedagem da cúpula. O Irã paga os foguetes. As Nações Unidas, com dinheiro do contribuinte ocidental, pagam a infraestrutura social que serve de fachada e, com frequência documentada, de cobertura logística. A União Europeia paga a reconstrução dos prédios bombardeados, prédios que serão bombardeados de novo no ciclo seguinte, num esquema de obras públicas eternas onde o cimento nunca seca e o orçamento nunca acaba. O empresário palestino comum, o pescador de Gaza, o engenheiro que queria abrir uma start-up, esses não pagam nem recebem; esses apenas morrem ou emigram.

A morte do filho do negociador será explorada nos próximos dias pelos dois lados, com a previsibilidade de um relógio suíço. Israel apresentará o ataque como prova de eficiência cirúrgica. O Hamas apresentará o filho morto como prova de que a luta continua sagrada. Ambos têm razão dentro da própria lógica, e ambos mentem sobre o conjunto. Porque o conjunto é simples: existe uma indústria da guerra permanente em Gaza que beneficia generais israelenses, líderes islamitas, ditadores árabes, burocratas da ONU e fabricantes de armamento de quatro continentes. Os únicos que nunca lucram são os mortos e suas mães. Mas os mortos não votam, não negociam, não publicam memórias.

Há uma regra antiga, esquecida pelos analistas de relações internacionais que confundem complexidade com profundidade: julgue o líder pelo que ele faz com a própria família, não pelo que diz nos discursos. Quem manda o filho para a frente, e morre junto, é fanático sincero, e merece pelo menos a dignidade trágica do erro próprio. Quem fica em Doha enquanto enterra o quarto filho via comunicado oficial não é mártir, é gerente. E o que esse gerente gere, exatamente, é a transformação contínua de carne palestina em capital político árabe, em verba humanitária europeia e em pretexto militar israelense. É um negócio redondo, lucrativo para quase todos os envolvidos. Quase.

O Ocidente acompanha tudo isso com a perplexidade fingida de quem nunca entende por que o ciclo não termina. Não termina porque ninguém com poder de decisão quer que termine. Cessar-fogo definitivo significaria desemprego para uma classe inteira de intermediários, ativistas profissionais, ministros do exterior, ONGs de causa única e jornalistas especializados em sofrimento alheio. O conflito é a folha de pagamento. E enquanto a folha não fechar, sempre haverá um quarto filho de alguém para colocar na manchete da quinta-feira, enquanto o pai concede entrevista exclusiva, de luto, do saguão climatizado de um hotel cuja diária custa mais do que a casa que sobrou da família dele em Gaza.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.