Morreu Oscar Schmidt, aos 68 anos, na sexta-feira, depois de décadas travando com o corpo a mesma guerra silenciosa que travou com os marcadores nas quadras europeias. O filho revelou que o pai havia descoberto um novo tumor em 2025, e ali começou o último lance livre de uma vida que foi, do primeiro ao último arremesso, um monumento ao esforço individual. Não houve comitê, não houve programa de governo, não houve secretaria do esporte construindo a lenda. Houve um sujeito alto, teimoso, com a mão calibrada por repetição obsessiva, fazendo aquilo que nenhuma política pública no mundo jamais conseguiu fabricar: excelência genuína.

É curioso como o país que produziu o maior cestinda da história olímpica do basquete masculino não tem, até hoje, uma quadra decente em cada bairro. O dinheiro do esporte no Brasil virou ralo burocrático, confederação com presidente vitalício, medalhão engravatado distribuindo cargo, enquanto o talento bruto sobrevive por milagre, por pai que levou o filho pra treinar, por treinador que pagou a gasolina do próprio bolso. Oscar não saiu de um projeto oficial. Saiu do acaso produtivo, daquela coisa que floresce quando o poder público está distraído roubando em outro lugar.

Jogou na Itália porque no Brasil a estrutura profissional era, e ainda é, uma piada de mau gosto. Foi buscar em Caserta e Pavia o que aqui lhe seria negado por incompetência institucional crônica. Recusou a NBA num tempo em que recusar a NBA era praticamente heresia, e fez isso por fidelidade à seleção, coisa que hoje soa tão antiquada quanto cumprir a palavra empenhada. Pagou do próprio bolso o preço de ser coerente, enquanto por aqui engravatados recebem diárias para ir à Olimpíada tirar selfie com atleta que treinou em condição de miséria.

Em 1987, no Pan do Indianápolis, quarenta e seis pontos sobre os donos da casa, e a façanha virou folclore oral porque nem televisão estatal quis comprar direito. O Estado brasileiro descobre o atleta depois que ele já venceu sozinho, nunca antes. A lógica é sempre a mesma: o sujeito sangra para construir, e quando a obra está pronta aparece o burocrata querendo colar a plaquinha com o nome do ministro. Oscar nunca teve plaquinha. Teve, isso sim, aquela mão direita que parecia ter GPS até os cinquenta anos, e uma disciplina monástica que nenhum programa de incentivo jamais ensinou a ninguém.

Depois vieram os tumores, o cerebral em 2019, o novo em 2025, e aquela batalha que gente de verdade trava longe das câmeras. Morreu como viveu, sem pedir esmola, sem fazer chantagem emocional em campanha de vaquinha oficial, sem transformar a doença em plataforma política. Saiu pela porta da frente, com a mesma elegância com que entrava em quadra para enterrar trinta, quarenta, cinquenta pontos em cima de seleção que treinava com orçamento dez vezes maior que o nosso. Prova viva de que dinheiro público não produz campeão; produz, no máximo, cartola.

Fica a pergunta incômoda, agora que as homenagens oficiais vão chover dos mesmos gabinetes que nunca ergueram um ginásio sequer: quem pagou pela trajetória de Oscar Schmidt? Ele mesmo, a família, os clubes privados que o contrataram, os torcedores que compraram ingresso. E quem vai receber, agora, o dividendo simbólico da memória dele? Os de sempre, os que vão discursar no plenário, batizar avenida, propor medalha póstuma, enquanto o menino que poderia ser o próximo Mão Santa está driblando buraco numa quadra de cimento rachado no interior. O cestinha morreu. A farsa institucional segue invicta, e essa sim nunca erra um arremesso.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.