A notícia chega embrulhada em romantismo barato, daqueles que a imprensa esportiva adora servir morno: Luca Zidane, filho do santo do estádio francês, foi convocado pela seleção argelina para a Copa do Mundo, ao lado de um Mahrez qualquer que carrega o sobrenome certo. Estreia marcada contra a Argentina, atual campeã, num roteiro que parece escrito por um departamento de marketing com saudade do velho colonialismo às avessas. A Argélia, que mal conseguia colocar onze homens em campo sem implorar por naturalizações nos anos noventa, agora descobriu o atalho definitivo para a relevância: catar passaportes pendurados em árvores genealógicas europeias.

O fenômeno tem nome e endereço fiscal. Federações africanas e árabes, sufocadas pela mediocridade técnica de seus campeonatos domésticos, transformaram a caça ao binacional num esporte paralelo, mais lucrativo que a própria bola rolando. Funciona assim: você não investe um centavo em base, não constrói um campo decente, não forma um treinador sequer, mas mantém uma equipe de advogados e olheiros vasculhando ligas francesas, belgas e espanholas atrás de qualquer rapaz com avó nascida em Orã. Encontrou, convoca, e pronto, o problema da formação esportiva foi terceirizado para o contribuinte europeu, que pagou a creche, a escola, o centro de treinamento e o sistema de saúde que produziu o atleta.

É a velha lógica do parasitismo institucional aplicada ao gramado. Quem paga? O cidadão francês, holandês, alemão, que sustenta com seus impostos confiscatórios um sistema de formação que depois vê os frutos vestindo a camisa do adversário no Mundial. Quem recebe? Cartolas que mantêm seus cargos sem prestar contas, presidentes de federação que posam para a foto da convocação, patrocinadores que vendem camisas com sobrenomes famosos, e claro, o jogador, que ganha uma vitrine global que o time B do clubinho dele jamais ofereceria. A indústria do nepotismo esportivo é uma das poucas que cresce dois dígitos ao ano sem pedir licença a ninguém.

Note a deliciosa hipocrisia da coisa. Quando um clube europeu naturaliza um brasileiro para a seleção local, a torcida grita que é falta de patriotismo, que está se prostituindo a camisa, que o futebol nacional virou mercadoria. Quando uma seleção africana faz a mesma coisa em sentido inverso, recolhendo herdeiros de imigrantes que mal sabem onde fica Argel no mapa, vira história bonita de reconexão com as raízes, narrativa pós-colonial emocionante, justiça histórica. O critério moral muda conforme a conveniência do narrador, e o narrador, sempre, é quem manda na mídia. As coisas, porém, são o que são, e não o que a redação do jornal politicamente correto quer que sejam: uma seleção que precisa importar identidade é uma seleção que fracassou em construir a própria.

O Zidane júnior, diga-se, é goleiro reserva eterno em times de meio de tabela espanhol, e só foi lembrado pela federação argelina depois que ficou claro que o pai jamais o convocaria para nada que fosse francês. É o reaproveitamento ecológico do sobrenome, uma reciclagem nobre do capital simbólico paterno, transformando ranço em oportunidade. A Argélia ganha um pôster, o garoto ganha uma Copa, e o futebol argelino continua, ano após ano, terceirizando sua existência. Quando a bola rolar contra os argentinos, lembrem-se: ali não joga um país, joga um esquema de captação que descobriu como furar a fila do mérito sem precisar formar absolutamente ninguém.

No fim, o esporte apenas escancara o que a política já provou mil vezes: instituições que não produzem valor por conta própria sempre encontram um jeito de viver às custas das que produzem. Chamem isso de globalização, de cidadania flexível, de modernidade líquida, o nome bonito do mês. O fenômeno é o mesmo de sempre, tão velho quanto o primeiro burocrata que descobriu que era mais fácil cobrar pedágio na ponte que outro construiu do que erguer a própria.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.