O número caiu na mesa como uma louça quebrada: onze bilhões e oitocentos e oitenta milhões de reais. É esse o tamanho do pânico que a redução da jornada para quarenta horas semanais provocou na confederação que representa o setor de transporte. O comunicado veio embrulhado em gráficos, projeções e aquele vocabulário técnico que transforma a ganância corporativa em preocupação econômica de longo prazo. Mas basta raspar o verniz para descobrir que a conta, na verdade, é bem mais simples e bem mais constrangedora: onze bilhões é quanto o setor economiza todo ano ao segurar o trabalhador um dia a mais por semana. Não é prejuízo futuro. É privilégio presente sendo ameaçado.

Convém lembrar uma trivialidade que os comunicados patronais fingem esquecer. Quando alguém alega que reduzir jornada custa onze bilhões, está admitindo, na mesma frase, que essas mesmas horas geram onze bilhões em valor. Ora, se o trabalho cria a riqueza, a pergunta civilizada é outra: por que essa riqueza, até ontem, era apropriada integralmente por quem não a produziu com o próprio corpo? A resposta tem nome antigo, e nenhum relatório de confederação terá coragem de escrevê la. Chama se arranjo. Chama se combinado entre os grandes para que o preço da força de trabalho seja fixado abaixo do valor que ela efetivamente gera. Quando o combinado racha, aparecem os relatórios catastrofistas.

A peça tem encenação previsível e já foi montada tantas vezes que dá para recitar as falas de memória. Quando se discutiu férias remuneradas, o setor gritou falência. Quando se discutiu décimo terceiro, o setor gritou falência. Quando se limitou a jornada em quarenta e quatro horas, o setor gritou falência. Em todas as ocasiões, a confederação do momento publicou seu relatório apavorante, cheio de bilhões hipotéticos, e em todas as ocasiões o setor continuou distribuindo dividendos, comprando frota, trocando caminhonete do diretor e patrocinando campanha de deputado amigo. A catástrofe anunciada nunca chega. Chega sempre a renovação do arranjo, com novo verniz e a mesma gordura.

Siga o dinheiro e o quadro se desembaça. Onze bilhões não evaporam se a jornada cair. Eles apenas mudam de bolso, saindo do caixa da empresa e indo para o do trabalhador que, enfim, recebe pelo tempo que já entregava de graça. É essa transferência que está sendo chamada, com desaforo, de custo. O raciocínio implícito é majestático em sua desfaçatez: se o patrão fica com o valor, é lucro sadio; se o trabalhador fica, é prejuízo social. Todo o esforço do relatório é transformar essa torpeza em coluna de Excel, na esperança de que o cidadão comum, vendo tantos decimais, se esqueça da aritmética moral por trás deles.

Há ainda o coro dos acólitos, aqueles que repetem que a medida vai encarecer o frete, a passagem, o tomate no supermercado. É a velha chantagem do cativeiro doméstico: sem o patrão generoso, você passa fome. O argumento cola porque a plateia foi ensinada, década após década, a confundir o empregador com o empregador benevolente, o contratante com o benfeitor. É um atalho psicológico útil ao setor, e um obstáculo à inteligência pública. Preço se forma por concorrência, não por decreto moral da confederação. Se o mercado é minimamente competitivo, o ajuste vem por produtividade, por eficiência, por reorganização. Se não vem, é porque o mercado não é competitivo, e aí o problema é outro, bem mais embaraçoso de discutir em relatório patronal.

No fim da missa, resta a pergunta que organiza toda a coluna e toda a economia política honesta. Quem paga e quem recebe? Até agora, pagava o motorista, o cobrador, o operador de armazém, o mecânico de oficina, todos eles cedendo um sexto do próprio tempo semanal ao bolso de terceiros. Recebia a estrutura corporativa que agora chora pelos cantos, alegando que onze bilhões podem ruir o país. Não vão ruir coisa alguma. Vão apenas retornar, com séculos de atraso, a quem sempre os produziu. Chame se isso de prejuízo se quiser. O resto do mundo chama pelo nome certo, que é devolução.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.