A cena é conhecida e a peça é antiga. Um grupo de parlamentares, cujo expediente consiste basicamente em apertar botão e comparecer a inauguração, resolveu que o trabalhador brasileiro está exausto demais com a escala 6x1 e precisa ser salvo. A proposta tramita, ganha manchete, vira bandeira, e ninguém no plenário se pergunta a coisa mais elementar do universo: se a bondade é tão pura, por que ela vem embrulhada numa lei que obriga o vizinho a pagar? Filantropia com dinheiro dos outros tem nome feio, e não é filantropia.

Vejamos o arranjo com a frieza que ele merece. O padeiro da esquina, aquele que abre às cinco da manhã porque ninguém mais quer trabalhar antes do sol, opera com três funcionários na escala atual. Reduza a jornada sem reduzir o salário e o custo por hora sobe na mesma proporção. Ele tem duas saídas, ambas desagradáveis para quem diz querer ajudar: demite alguém e sobrecarrega os que ficam, ou repassa o custo para o pãozinho e aí quem paga a gentileza legislativa é a diarista que compra cinco unidades no caminho do ponto. O pobre financia o discurso sobre o pobre. Velho truque, cenário novo.

Quem escapa dessa conta? Curiosamente, justamente quem a escreve. O servidor público estável, o bancário sindicalizado, o funcionário da estatal, o parlamentar com auxílio paletó, todos esses já trabalham em jornadas reduzidas ou protegidas por regimes próprios que a lei nova sequer tangencia. Os excluídos do debate são o motoboy, o garçom, o vigia, o operador de caixa, o vendedor de loja, gente que não tem assessor para negociar banco de horas e cuja demissão ninguém registra no noticiário. A reforma chega como chuva, molha só o telhado de quem já tem guarda chuva.

A lógica do arranjo é irretocável em sua perversidade. Se encarecer o trabalho formal fosse caminho para a prosperidade, a França já seria a Suíça e não teria quatro milhões de jovens fora do mercado. O empresário não é vilão nem santo, é calculadora. Encareça o funcionário e ele contrata menos, terceiriza mais, automatiza o que puder, empurra o resto para o informal sem carteira, sem férias e sem décimo terceiro. A generosidade decretada por canetada produz, com a regularidade de um relógio suíço, exatamente o contrário do que promete no palanque.

E aqui a pergunta inconveniente que ninguém faz na tribuna. Quem ganha com a proposta? Ganham os sindicatos que voltam ao centro da mesa, ganham os políticos que vão cobrar o voto em 2026, ganham as centrais que faturam imposto sindical por tabela, ganham os juristas trabalhistas que vão advogar cada vírgula da nova redação por décadas. Perde quem? O pequeno empreendedor sem departamento jurídico, o trabalhador informal que continua invisível, o consumidor final, o desempregado que nunca vai ser contratado porque contratar ficou caro demais. A conta do almoço grátis chega sempre, e costuma vir na mesa de quem não foi convidado.

No fundo, o que está em jogo não é jornada de trabalho. É a velha pretensão de que um punhado de homens em Brasília sabe melhor do que você quantas horas você deve vender do seu próprio tempo. É a suposição de que o contrato entre dois adultos precisa da tutela de um terceiro armado para ser legítimo. Chamam isso de proteção, e é a mesma palavra que o agiota usa quando quebra o dedo de quem não paga o pedágio. O trabalhador brasileiro não precisa de pai legislativo, precisa de um país onde emprego sobre e salário suba porque há competição por mão de obra, não porque há decreto. O resto é teatro, e o ingresso, como sempre, está embutido no preço do pão.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.