O figurino estava impecável, o palco montado, cinco mil fiéis devidamente arrebanhados num parque de shows em Santa Catarina, e ali, sob luzes que custam caro e som que custa mais caro ainda, o primogênito anunciou que pretende, com o pé direito, sentar na cadeira mais cobiçada da República. Trouxe jingle, trouxe sorriso, trouxe a iconografia do clã. Faltou apenas o detalhe insignificante que ninguém no Stage Music Park ousa perguntar em voz alta: quem está pagando esta produção, e o que esta produção pretende cobrar de volta quando a fatura vencer?
Há algo de profundamente cômico, e ao mesmo tempo profundamente sintomático, em uma família que entrou na vida pública como insurgente antissistema e agora despacha herdeiro atrás de herdeiro como se estivesse distribuindo cargos numa repartição hereditária. Vereador, deputado, senador, ministro, agora pré candidato a presidente. O sobrenome virou franquia. E franquia, todo mundo que já abriu uma sabe, exige royalties, exige territórios protegidos, exige fila de fornecedores credenciados. A política brasileira, que se anuncia como serviço ao povo, opera há décadas como cartório de famílias, e a única novidade é que agora o cartório aprendeu a usar TikTok.
Siga o dinheiro e o palco se ilumina sozinho. Partido grande recebe centenas de milhões do fundo eleitoral, dinheiro que sai do bolso do sujeito que acorda às cinco da manhã para pegar dois ônibus e ir trabalhar, e esse dinheiro reaparece em forma de jingle, de palanque, de cachê, de assessor de marketing, de aluguel de casa de shows, de logística de ônibus fretados que despejam apoiadores eufóricos diante das câmeras. O eleitor que aplaude no fundo do salão está aplaudindo, sem saber, o próprio confisco do contracheque. É o circo pago pela vítima, encenado com a serenidade de quem nunca achou estranho que ladrão de galinha vire dono do galinheiro pela via legislativa.
O argumento da continuidade é o mais frágil de todos, e por isso é o mais repetido. Diz se que o herdeiro carrega a missão, o legado, o projeto. Mas projeto não se herda como gado, e missão pública não se transmite por DNA. Se a tese fosse válida, deveríamos ter aceitado a coroação dos filhos de cada presidente desde a fundação da República, e a julgar pelos resultados, ainda bem que não aceitamos. O critério para ocupar o cargo mais poderoso de uma nação não pode ser o batismo certo nem o sangue certo, sob pena de transformarmos a urna em registro de capelania. As coisas são o que são: dinastia se chama dinastia, mesmo quando se veste de candidatura.
Há ainda o detalhe da blindagem. Pré candidato a presidente é figura tutelada por um arsenal jurídico, midiático e financeiro que o cidadão comum jamais terá. Cada inquérito vira perseguição, cada questionamento vira ataque, cada análise crítica vira fake news. O candidato profissional aprendeu que ofender se tornou negócio rentável: quanto mais cercado, mais arrecada; quanto mais investigado, mais mártir. É a alquimia perfeita do populismo de qualquer matiz, da esquerda à direita, do centrão ao messiânico, todos descobriram que vitimismo bem produzido converte em voto e em doação. O jingle é apenas a embalagem festiva de uma operação que já vem rodando há tempos.
Resta, ao leitor que ainda não trocou o cérebro por uma bandeira, fazer a única pergunta que importa quando se levanta um palco com luzes deste porte. Quem paga, e quem recebe? O cidadão paga, com imposto, com inflação, com tempo de vida sequestrado pelo Estado. Recebe quem vive do Estado, quem orbita o Estado, quem herda o acesso ao Estado. O resto é jingle. E jingle, por mais grudento que seja, não constrói padaria, não baixa conta de luz, não devolve um centavo de imposto. Apenas anestesia, em tom maior, o tamanho do prejuízo.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.