O senador carioca, herdeiro político por sobrenome e pré-candidato por hereditariedade, veio a público lamentar que as críticas do ex-governador de Minas teriam inviabilizado uma chapa conjunta para 2026. Note a delicadeza da queixa: não foi a divergência programática, não foi a incompatibilidade de projetos, não foi nenhuma questão de princípio. Foi a crítica. O crime do mineiro foi abrir a boca antes da hora combinada, quebrar o protocolo do cartel, estragar a coreografia ensaiada nos bastidores. Em política brasileira, criticar aliado é pecado mortal; trair eleitor é apenas terça-feira.

Observe a estrutura do raciocínio que nos vendem como notícia. Premissa maior: alianças se constroem sobre afinidades de projeto. Premissa menor: dois pré-candidatos discordam publicamente sobre métodos e estilo. Conclusão lógica que ninguém ousa enunciar: então não há projeto comum, há disputa pelo mesmo balcão. O resto é teatro para a plateia de fiéis, que paga ingresso com o voto e sai do espetáculo achando que viu democracia quando assistiu apenas leilão de cargo.

Pergunte ao primeiro entusiasta de boné amarelo qual a divergência ideológica concreta entre o herdeiro e o mineiro. Ele vai gaguejar, falar em pauta de costumes, soltar palavra de ordem. A verdade desconfortável é que ambos cabem confortavelmente dentro do mesmo guarda chuva fiscal, do mesmo apetite por máquina pública, da mesma disposição de governar com o Centrão que ontem mesmo era satanizado nos comícios. O que separa os dois não é doutrina, é ordem de chegada na fila do butim. Cada um quer ser cabeça, e cabeça de chapa, no Brasil, significa controle sobre nomeações que somam dezenas de milhares de cargos comissionados, ministérios, estatais, embaixadas e fundos cuja contabilidade ninguém audita de verdade.

É a velha história das cortes barrocas, quando duques fingiam disputar a alma do reino e na verdade brigavam por quem ficaria mais próximo do tesouro real. Trocaram se as perucas pelos bonés, os palácios pelos comitês, os títulos nobiliárquicos pelos foros privilegiados, mas a mecânica permanece intacta. Quem manda na cabeça da chapa manda na canetada do orçamento secreto, na distribuição de emendas, na engorda das clientelas. O resto, programa, plataforma, promessa de combate à corrupção, é folheto distribuído na porta do circo para entreter quem ainda acredita em circo.

E há ainda o detalhe que ninguém comenta com a clareza devida. Se o sujeito reclama que uma crítica inviabiliza chapa, está confessando que sua candidatura sobrevive de cortesia, não de mérito. Projeto sólido aguenta crítica, absorve divergência, sai fortalecido do debate. Projeto frágil treme ao primeiro vento, exige reverência prévia, fabrica vetos pessoais e os apresenta como exigências do eleitorado. A tese de que existe uma direita unida foi inventada para arrecadar doação e mobilizar militante; na prática, a direita brasileira é uma confederação de feudos que se odeiam mais entre si do que odeiam o adversário, e cada feudo quer o trono inteiro porque trono dividido não rende dividendo.

No fim, sobra a pergunta que importa e que jamais aparece no noticiário palaciano. Quem paga essa novela toda? O contribuinte que financia o fundo eleitoral bilionário, o fundo partidário, a estrutura de campanha que consome em meses o que uma família média de classe média junta numa vida. E quem recebe? Os mesmos sobrenomes, os mesmos partidos, os mesmos operadores que, ganhe quem ganhar, voltam ao mesmo balcão a cobrar a comissão de praxe. A discussão sobre quem encabeça a chapa é tão relevante para a sua vida quanto saber qual dos dois garçons vai servir a conta que você vai pagar.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.