Existe uma regra antiga, daquelas que se aprendem observando feira livre e plenário com a mesma atenção: quando o vendedor jura, sem ser provocado, que a balança está calibrada, é hora de pesar a mercadoria em outro lugar. Foi exatamente o que aconteceu nesta semana. O senador e pré-candidato à Presidência saiu a campo para negar, com vigor, que a oposição tenha selado qualquer acordo com o ministro do Supremo Tribunal Federal a respeito da CPI do Master. Segundo ele, a votação da dosimetria das penas teve prioridade na agenda, e a comissão parlamentar de inquérito vai avançar nas próximas sessões. Pronto. Agora podemos dormir tranquilos. Ou não.
O problema desse tipo de declaração é puramente lógico, não retórico. Se a comissão estivesse avançando como o regimento manda, ninguém precisaria garantir que ela vai avançar. Aviso de incêndio não se dá em casa que não está pegando fogo. A própria necessidade do desmentido é a prova circunstancial da existência do que se nega. E aqui não estamos falando de uma CPI qualquer, estamos falando do Master, banco que gravitava nas órbitas de figuras que a República finge desconhecer, com bilhões evaporados, depositantes esquecidos no balcão e a estranha capacidade de transformar prejuízo privado em problema do contribuinte. Se você sente um cheiro de queimado, é porque está queimando.
Sigamos o trajeto do dinheiro, que é a única bússola honesta nesse pântano. O Master era um banco. Bancos captam recursos do público com a promessa de devolvê los. Quando a promessa quebra, alguém paga a conta. Em regimes que respeitam a propriedade alheia, paga o acionista, paga o gestor que mentiu no balanço, paga quem auditou e fingiu não ver. Em regimes como o nosso, paga você, via Fundo Garantidor de Créditos, via socorro disfarçado, via inflação travestida de política monetária. A CPI existiria, em tese, para esclarecer quem capitalizou os lucros e quem socializou os prejuízos. E é precisamente por isso que ela não anda. Comissão que ameaça apontar nomes vira pauta de barganha mais rápido do que projeto de aumento de salário de servidor.
O detalhe mais saboroso é a moeda de troca insinuada pelo próprio desmentido. Dosimetria de pena, traduzindo do latim parlamentar, significa abrandar punição de gente já condenada. De um lado da balança, suposto interesse de parlamentares em diminuir penas de aliados políticos. Do outro, suposto interesse de um ministro em que a CPI do Master não saia do berço. Os dois lados negam, claro, porque negar é grátis e o brasileiro tem memória curta como gato em casa nova. Mas a estrutura do negócio está ali, escancarada na própria pressa de desmenti la. O silogismo é cruel: se há prioridade em votar dosimetria, e se a CPI está parada, e se ambos os movimentos beneficiam exatamente as mesmas pessoas, então a coincidência começa a exigir um esforço heroico de credulidade.
Não custa lembrar que essa coreografia não é nova. Toda vez que o andar de cima precisa resolver uma pendência, o andar de baixo é convidado a olhar para o outro lado. Pão e circo funcionavam em Roma porque a plebe recebia trigo de graça enquanto o Senado dividia as províncias. Aqui é igual, só que sem o trigo. Recebemos a narrativa moralista de plantão, o discurso da dosimetria justa, a indignação seletiva de sempre, e enquanto isso a CPI dorme o sono dos justos. Justos, no caso, sendo aqueles que conseguiram o que queriam sem precisar assinar nada. O acordo de cavalheiros entre quem detém o monopólio da força e quem detém o monopólio do voto raramente precisa de cartório. Aperto de mão, olhar cúmplice, prioridade de pauta, e está feito.
Quem paga essa festa, no fim do dia, é o sujeito que acorda às cinco da manhã para pagar imposto sobre o pão, sobre o ônibus, sobre o salário, sobre a conta de luz, sobre o boleto do banco que talvez seja o próximo a quebrar. Quem recebe é o ecossistema simbiótico de banqueiro mal sucedido, político bem relacionado e magistrado com agenda própria. A pergunta que deveria estar em todo telejornal não é se houve acordo, é por que ainda fingimos acreditar que não há. O rei está nu, parado no meio da praça, e contratou um assessor de imprensa para garantir que as roupas estão ótimas. Aplausos.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.