O escândalo é pequeno, quase ridículo, e por isso mesmo revelador. Um painel eletrônico em território paraguaio exibe a imagem do ex-presidente numa montagem que a família considera ofensiva, e a resposta vem em letras maiúsculas digitais: o senador classifica o ato como criminoso e exige providências do presidente vizinho. Repare na arquitetura do gesto. Não se trata de processar o autor da peça, não se trata de responder com ironia, com argumento, com paródia equivalente. Trata se de invocar a autoridade pública estrangeira para apagar uma imagem que incomoda. O patriota que jura defender a liberdade descobre, num sábado de tédio, que liberdade é coisa boa quando é a dele.

Há uma comédia antiga nesse roteiro. Sempre que o poderoso é alvo da sátira, o palhaço vira caso de polícia. Sempre que o sátiro é o poderoso, a sátira é coragem cívica. A vara que mede deveria ser uma só, e quando muda de tamanho conforme o lado, já não estamos diante de princípio, estamos diante de conveniência travestida de princípio. O sujeito que durante anos exigiu o direito de chamar adversário de bandido, ladrão, comunista, capacho, agora descobre que uma montagem num telão da fronteira merece intervenção diplomática. A coerência morreu de tédio em algum momento entre a campanha e o cargo.

A coisa fica mais interessante quando se pergunta a quem serve a indignação. O painel ofensivo, paradoxalmente, é o melhor presente que a família poderia receber numa semana morna. Vira post, vira solidariedade, vira mobilização de base, vira disparo em grupo de zap, vira mais um capítulo da liturgia do martírio. Quem reclama em alto e bom som de uma agressão pequena está, na prática, transformando o mosquito em elefante porque o elefante rende mais. A vítima profissional aprendeu que dor exibida no varejo paga dividendos no atacado. Cada ofensa é matéria prima, cada provocação é combustível, cada telão hostil é ouro em pó para a economia política do ressentimento.

E há a questão de fundo, a mais grave, aquela que ninguém quer encarar de frente. Pedir ao presidente de um país soberano que tome providências contra um cartaz é pedir que o Estado, ali, exerça censura prévia em nome da honra alheia. É reconhecer, com todas as letras, que a propriedade do espaço público e do espaço privado de quem alugou aquele painel deve ser confiscada porque alguém, do outro lado da ponte, se sentiu ferido. Quem defende isso para si abre o precedente para que amanhã o mesmo argumento seja usado contra si. A guilhotina que se afia hoje contra o inimigo é a mesma que cai amanhã sobre o próprio pescoço, e quem brinca de regulamentar o gosto alheio sempre acaba descobrindo que o gosto oficial não é o seu.

A lição é velha e nunca aprendida. Liberdade de expressão não é o direito de dizer o que agrada, é exatamente o direito de dizer o que desagrada, inclusive aos poderosos, inclusive aos seus filhos, inclusive aos seus eleitores. No instante em que essa liberdade depende do humor do alvo, ela já não existe, virou favor concedido pelo soberano. O outdoor é feio, talvez injusto, talvez de péssimo gosto. Mas o feio, o injusto e o de péssimo gosto também moram dentro da liberdade, e quem quer expulsá los está, sem perceber, expulsando a liberdade pela porta dos fundos enquanto bate continência pela da frente.

No fim da contagem, fica o retrato de sempre. O político que prometeu ser diferente reage como qualquer outro político: ofendido, pede providência; contrariado, invoca autoridade; exposto ao ridículo, transforma o ridículo em crime. O eleitor que comprou o pacote da coragem recebe, na entrega, mais uma encomenda de melindre fardado. Quem paga é o cidadão comum, aquele que financia com imposto a estrutura que protege a suscetibilidade do gabinete. Quem recebe é o clã, que monetiza a ofensa, multiplica seguidores e ainda sai como vítima. A propaganda paraguaia errou no alvo e acertou em cheio: revelou, sem querer, que a casca grossa anunciada era de papel crepom.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.