O senador Flávio Bolsonaro publicou um vídeo mostrando brasileiros famintos com a intenção de golpear o governo Lula. A imagem era forte, a intenção era clara, o problema era singelo: as cenas foram registradas durante o governo Bolsonaro. O aliado do Planalto que primeiro identificou o equívoco deve ter sentido aquela sensação específica de quem assiste a um homem escavar a própria cova com entusiasmo. A reação veio. A nota de esclarecimento, provavelmente, está sendo redigida neste momento por algum assessor cujo talento para eufemismos certamente supera o do patrão para verificar datas.
Seria tentador encerrar o assunto aqui, catalogar o episódio como mais uma gafe de uma classe política cronicamente desatenta aos fatos e seguir em frente. Seria tentador, mas seria também uma covardia intelectual. Porque o que este vídeo revela não é a incompetência de um senador específico. O que ele revela é a estrutura de um jogo que transcende partidos, mandatos e até gerações inteiras de políticos. A fome no Brasil não é notícia. A fome no Brasil é capital político, e todo mundo que senta nos palácios entende isso com uma clareza que jamais aplica às soluções.
Pense no silogismo que está implícito em qualquer campanha que use imagens de miséria para atacar o adversário. A premissa maior é que o sofrimento do povo é culpa do governo atual. A premissa menor é que o governo anterior era diferente. A conclusão que se espera do eleitor é que trocar um governo por outro resolve o problema. Mas há um vício lógico enterrado ali, visível para qualquer um que não esteja comprometido com a conclusão antes de examinar as premissas: se a fome existia antes, existe agora e existirá depois, talvez o problema não seja este ou aquele governante. Talvez o problema seja o próprio sistema que faz da miséria uma ferramenta de poder em vez de uma urgência moral a ser eliminada. Mas essa conclusão é perigosa demais para os que vivem do jogo, então ela nunca aparece nos vídeos publicados por senadores de nenhum lado.
Roma decadente tinha o seu pão e circo. O Brasil tem o seu mapa da fome e palanque eleitoral. A mecânica é a mesma: o sofrimento real de pessoas reais serve de combustível para a máquina política, que o processa, o transforma em votação, em cargo, em emenda, em contrato, e devolve ao povo uma fração mínima sob a forma de benefício com nome de fantasia e logomarca de governo. Quem interrompe esse ciclo perde o controle da narrativa. Quem o denuncia integralmente, de ambos os lados, perde eleição. Logo, ninguém o denuncia integralmente. Logo, o ciclo continua. A lógica é impecável quando vista de dentro do sistema, que é exatamente de dentro do sistema que todos os envolvidos a enxergam.
O episódio de Flávio tem um elemento cômico inegável, e seria desonesto fingir que não. Mas o elemento trágico é mais duradouro. A tragédia não é um senador confundindo datas. A tragédia é que nenhuma das partes que hoje se agride com vídeos de famintos jamais apresentou uma proposta séria de eliminar os mecanismos que mantêm o brasileiro pobre: a carga tributária que devora o empreendedor pequeno antes que ele cresça, o protecionismo que encarece tudo que o pobre compra, a inflação monetária que corrói o salário antes que ele chegue ao fim do mês, a burocracia que torna ilegal trabalhar sem licença do Estado. Nada disso aparece no vídeo. No vídeo aparece o faminto, útil, fotografável, votável. O faminto como argumento. O faminto como munição. O faminto como tudo, menos como um ser humano cuja situação poderia ser resolvida se alguém, em algum palanque, um dia, tivesse a coragem de dizer a verdade sobre quem cria e quem mantém a pobreza no Brasil.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.