Há uma cena que se repete na história de todas as repúblicas que apodrecem devagar: o filho do príncipe, após anos de banquete no poder, sobe ao palanque da oposição e aponta, com dedo apontado e voz grave, para a fome do povo. O problema, quando o príncipe é Bolsonaro e o filho é Flávio, é que o vídeo que ele exibiu neste domingo como acusação contra Lula foi filmado durante o governo de quem o gerou. A plataforma X não mente sobre timestamps. Os algoritmos são mais honestos do que os senadores.

Comecemos pelo fato, porque ele é ao mesmo tempo banal e sintomático. Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, publicou imagens de famílias recolhendo alimentos descartados no lixo em Fortaleza e as usou como prova de que o governo Lula é uma catástrofe humanitária. A intenção era legítima, o método foi preguiçoso, e a desonestidade foi involuntária, o que a torna mais reveladora. Quando a oposição precisa reciclar os próprios escândalos do passado para atacar o presente, ela confessa, sem querer, que a miséria não é uma invenção de um partido, mas o produto natural de um sistema que nunca foi projetado para acabar com ela, e sim para administrá-la.

Existe uma diferença fundamental, que qualquer pensamento político sério obriga a reconhecer, entre um problema que o Estado não consegue resolver e um problema que o Estado não tem interesse em resolver. Famílias catando comida no lixo existiam antes de Lula, existiam durante Bolsonaro, existiram durante FHC, durante Itamar, durante os militares, durante a República Velha. O Estado brasileiro, desde que foi inventado em seus contornos modernos, jamais eliminou a miséria estrutural porque a miséria estrutural é, para o Estado, uma matéria-prima política de valor incalculável. Sem ela, não há Bolsa Família, não há transferência de renda, não há messiânico plano de governo, não há razão para que o cidadão vá às urnas e entregue seu voto a troco de uma promessa. A fome, no Brasil, não é uma falha do sistema, é uma das suas engrenagens.

Siga o dinheiro e você entenderá tudo. O governo federal brasileiro gasta, em programas sociais de diversas nomenclaturas e formatos, cifras que fariam corar qualquer república europeia. O Bolsa Família sozinho movimenta mais de cem bilhões de reais por ano. A máquina burocrática que administra a pobreza, contando os ministérios, os conselhos, as autarquias, os cargos de confiança e os contratos de consultoria, consome uma fatia do orçamento que seria capaz de capitalizar pequenos negócios em cada favela do país. E, no entanto, ali estão elas, as famílias de Fortaleza, catando restos entre os sacos de lixo. Se o dinheiro foi, a pergunta que nenhum político da situação ou da oposição tem coragem de fazer em voz alta é: onde ele chegou? Não chegou à família. Chegou à estrutura que diz representar a família.

O senador Flávio, por sua vez, merece o crédito pelo instinto correto e o desconto pelo método descuidado. A inadimplência subindo, os estoques de alimentos básicos pressionando o orçamento familiar, a inflação que corrói o real que restou depois que o Estado já levou a sua parte no imposto, tudo isso é real e merece nome e responsável. Mas quando você usa como prova uma filmagem do período em que sua família controlava o Executivo federal, você não está denunciando o adversário, você está inadvertidamente confessando que o problema é maior do que qualquer governo, que é estrutural, que atravessa gestões petistas e antipetistas com a indiferença olímpica de quem sabe que nenhum dos dois lados tem intenção real de desmontar a armadilha. A fome serve a todos os palanques. Ela é bipartidária como poucos fenômenos políticos no Brasil conseguem ser.

O que o episódio deixa de herança para quem enxerga além do ciclo de 24 horas das redes sociais é uma pergunta simples e devastadora: se nem o filho do ex-presidente consegue construir uma crítica ao governo atual sem recorrer ao acervo fotográfico do governo anterior, o que exatamente diferencia os dois projetos? A resposta, para quem tem estômago para ouvi-la, é que a disputa entre PT e bolsonarismo é, em grande medida, uma disputa sobre quem vai gerenciar o mesmo aparelho com os mesmos instrumentos para os mesmos fins, enquanto em Fortaleza uma mãe decide se pega o frango vencido ou o arroz que ainda não virou vinagre.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.