Trinta e sete vírgula quatro por cento. Esse é o pedaço da renda que o inquilino mediano na Flórida entrega todo mês antes de comer, vestir, pagar escola ou guardar um centavo. O estudo saiu, a imprensa reproduziu com aquela cara de espanto que a imprensa usa quando quer parecer que descobriu algo, e o diagnóstico foi o de sempre: o mercado falhou, a especulação venceu, alguém precisa regular. Conveniente. Porque se você parar dois minutos e perguntar quem criou as condições para que o aluguel chegasse aí, a resposta não está no bolso do senhorio. Está no código de zoneamento, no alvará de construção, na exigência de seguro específico, no imposto sobre propriedade que o proprietário repassa ao inquilino com juros, e na fila de aprovação burocrática que faz uma obra levar três anos quando poderia levar oito meses. O mercado não falhou. O mercado foi impedido de funcionar, e agora levam a culpa exatamente os agentes que tentaram operar dentro do espaço que o Estado deixou.

A lógica é simples até a brutalidade. Quando você restringe artificialmente a oferta de qualquer bem enquanto a demanda cresce, o preço sobe. Não é teoria, é aritmética. A Flórida recebeu nos últimos anos uma das maiores ondas migratórias internas da história americana, pessoas fugindo de Nova York, Califórnia e Illinois em busca exatamente do que esses estados haviam destruído: custo de vida mais baixo, carga tributária menor, menos interferência no cotidiano. E chegaram para encontrar um mercado imobiliário engessado por décadas de restrições de construção, zonas residenciais que proíbem densidade, regulações ambientais que travam novos projetos e uma indústria de licenciamento que existe para proteger os que já estão dentro, não para servir os que querem entrar. O resultado é que a demanda explodiu sobre uma oferta que o próprio governo impediu de crescer. Chame isso de falha de mercado se quiser. Chame de qualquer coisa. Só não minta sobre a causa.

E aqui aparece a trilha do dinheiro, que é sempre a parte que os estudos convenientes omitem. Quem se beneficia de um mercado de aluguéis artificialmente restrito? Os proprietários que já têm imóveis valorizados, sim, mas também os municípios que arrecadam mais com imposto sobre propriedade conforme o valor sobe. As seguradoras com contratos obrigatórios que o próprio Estado exige. Os despachantes, arquitetos e consultores do labirinto regulatório que vivem da complexidade que ajudaram a criar. O corretor licenciado que cobra comissão sobre um bem cujo preço o licenciamento compulsório ajudou a inflar. A cadeia de beneficiários da restrição é longa, organizada e muito bem representada nas câmaras municipais. A cadeia dos prejudicados é atomizada, dispersa, e se chama inquilinos, que curiosamente não têm lobby, não têm patrono e não têm sindicato com acesso ao prefeito.

Há uma figura clássica na história do poder que consiste em criar o problema, aguardar o clamor e então se apresentar como solução. Roma fazia isso. Os monopólios medievais faziam isso. Os governos modernos aperfeiçoaram a técnica ao ponto de fazê-la parecer filantropia. O ciclo na Flórida segue o roteiro com precisão cirúrgica: regulação encarece a construção, oferta cai, aluguel sobe, estudo constata o sofrimento, político propõe controle de aluguel, controle de aluguel desincentiva novos imóveis, oferta cai ainda mais, aluguel sobe no mercado informal, estudo constata sofrimento maior, político pede mais regulação. Em nenhum ponto desse ciclo o agente que criou a restrição original é apontado. Em todos os pontos desse ciclo o agente que criou a restrição original cobra para consertar o que criou. É um negócio extraordinariamente lucrativo, desde que você não seja o inquilino pagando 37% da renda.

O detalhe mais revelador está no próprio parâmetro usado pelo estudo: 30% da renda como limite aceitável para moradia. Pergunta legítima, que ninguém faz: quem decidiu que 30% é o número? De onde veio essa régua? Surgiu de uma portaria do Departamento de Habitação americano nos anos 1980, arbitrária como toda portaria, e desde então virou verdade científica porque o governo a repetiu vezes suficientes. Isso não é ciência. É liturgia burocrática. O que de fato determina quanto uma família deveria gastar com moradia é o que sobra depois de gastar com moradia, e esse cálculo depende inteiramente de quanto o Estado já confiscou antes de o salário chegar à conta. Imposto de renda, contribuições compulsórias, impostos sobre consumo, todos retirados antes de o inquilino ver o número. O aluguel é alto. Mas o Estado já levou a fatia dele antes mesmo de o cheque ser assinado, e tem a elegância de não aparecer na conta que o estudo denuncia.

A Flórida é o pior estado para inquilinos, diz o estudo. Pode ser. Mas o pior credor do inquilino não está na linha do aluguel do contrato. Está nas linhas que não aparecem no extrato, nas taxas que financiam os mesmos gabinetes que vão agora convocar audiências públicas sobre a crise habitacional, ouvir especialistas subsidiados, recomendar programas de moradia popular que beneficiarão construtoras com conexões políticas, e entregar ao inquilino, no final, exatamente o que sempre lhe entregaram: uma conta maior e um discurso mais longo.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.