Eis o roteiro previsível do nosso tempo: monta-se um espetáculo náutico com adolescente sueca, bandeiras palestinas, câmeras ligadas e financiamento de ONGs internacionais, e vende-se ao mundo a imagem de cruzados puros contra o Leviatã israelense. Até que um dos capitães da embarcação, o brasileiro Thiago Ávila, apareça num jornal norte-americano acusado de assédio sexual pelas próprias colegas de missão. O barco da virtude bateu num iceberg velho como a humanidade, a saber, o apetite dos homens que se creem salvadores.
A cena tem sabor de farsa antiga. Sempre que um sujeito se apresenta como portador exclusivo da causa justa, com aquela solenidade de quem acredita estar acima do comum dos mortais, convém fechar bem o roupão. Missionários que se autoproclamam imaculados costumam cobrar em espécie a indulgência que distribuem em discurso. A lógica é simples e implacável: quem se julga salvando o mundo, acredita que o mundo lhe deve pagamento. E a moeda, frequentemente, é o corpo de quem confiou no uniforme da santidade.
Siga o dinheiro, porque é aí que a novela se decompõe. Quem custeia essas flotilhas performáticas, quem paga passagens aéreas, combustível naval, assessoria de imprensa internacional, advogados, logística? Não é o ativista com seu salário imaginário, é uma teia de fundações, governos estrangeiros simpáticos à causa e ONGs que vivem de captar recursos com o espantalho do conflito eterno. O sofrimento palestino virou modelo de negócio, e como todo modelo de negócio lucrativo, atrai o tipo de gerente que conhece bem a diferença entre aparecer nas fotos e lavar pratos na cozinha. Ávila aparecia nas fotos.
Há um silogismo que ninguém quer montar porque dói. Se o movimento prega respeito absoluto aos oprimidos, e se o movimento protege internamente quem os oprime, então o movimento é exatamente aquilo que diz combater, apenas com bandeira diferente. Nenhuma quantidade de keffieh no pescoço apaga o constrangimento relatado pelas vítimas. A coerência, coitada, é aquela velha mania burguesa que os revolucionários acham charmoso abandonar no porto antes de zarpar.
O escândalo tem a utilidade pedagógica de toda queda de máscara. O sujeito que se dispõe a desafiar a marinha israelense em nome da humanidade sofredora é o mesmo que, dentro de seu próprio barco, reproduz o padrão mais antigo de abuso entre assimétricos de poder. Nada novo sob o sol, nem entre as ondas. O tirano doméstico adora vestir uniforme de libertador externo, porque o aplauso lá fora compra licença aqui dentro. Lenin chamaria isso de tática, um bispo medieval chamaria de pecado, e o senso comum brasileiro, que é o mais afiado de todos, chamaria de canalhice com pose.
Resta a pergunta incômoda que nenhum editorial de esquerda fará: quantos outros capitães santos desses navios de redenção aguardam sua vez de serem denunciados pelas próprias tripulantes silenciadas pela causa maior? A causa maior, aliás, é o álibi preferido dos pequenos homens que precisam de um grande pretexto para cometer pequenezas. E enquanto o mercado do sofrimento alheio render passagens, jantares em Istambul e entrevistas em Nova York, haverá fila de voluntários a bordo. A flotilha segue. O cheiro é que piorou.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.