Repare no truque. O FMI revisa a projeção de crescimento do PIB brasileiro de 1,6% para 1,9%, e imediatamente a máquina de propaganda oficial começa a girar como se tivéssemos descoberto petróleo no quintal. Três décimos de ponto percentual, um arredondamento estatístico que caberia na margem de erro de qualquer planilha decente, e já se monta o palanque para celebrar a "retomada". A pergunta que ninguém faz é a única que importa: 1,9% de crescimento para quem? Porque o sujeito que paga a conta, o contribuinte brasileiro esmagado por uma carga tributária que ultrapassa 33% do PIB, certamente não está sentindo esse décimo a mais no bolso do mês.

O detalhe que os entusiastas do número mágico preferem esconder é o contexto. O mundo, segundo o mesmo FMI, deve crescer 3,1% neste ano. Ou seja, o Brasil cresce a 61% da velocidade média global, e isso é a versão otimista. Estamos comemorando que o trem anda devagar em vez de parado. A história econômica deste país é um catálogo de falsos milagres seguidos de ressacas reais. Já vimos esse filme nos anos 70, quando o crescimento financiado por dívida externa foi vendido como prova de genialidade estatal, e a conta chegou na forma de uma década perdida inteira. O padrão se repete porque o mecanismo é o mesmo: o governo gasta, a dívida cresce, os números de curto prazo melhoram, e quando o castelo de cartas desmorona, quem paga é sempre o mesmo cidadão que nunca foi convidado para o jantar.

Sigamos o dinheiro, como manda o bom senso. De onde vem essa melhora marginal na projeção? Do agronegócio que produz apesar do governo, não por causa dele. Das commodities cujo preço é determinado lá fora, onde Brasília não alcança para estragar. Da inércia de uma economia continental que insiste em funcionar mesmo com um parasita institucional sugando um terço de tudo que produz. O Estado brasileiro não gera riqueza, ele a redistribui, e redistribui é um eufemismo elegante para dizer que tira de quem produz e entrega a quem vota. Cada ponto percentual de crescimento do PIB que passa pelas mãos do governo volta ao cidadão já desidratado, depois de alimentar a burocracia, os fundos partidários, as emendas parlamentares e todo o ecossistema de intermediários que prosperam exatamente porque o dinheiro não vai direto de quem produz para quem consome.

O FMI, aliás, merece um parágrafo à parte. Esta é uma instituição fundada para emprestar dinheiro a governos que gastam demais, financiada por contribuintes de países que também gastam demais, e que emite relatórios periódicos dizendo a esses mesmos governos que estão indo razoavelmente bem. É o médico que vive do doente e portanto jamais vai receitar a cura. Quando o FMI elogia um país, o que ele está realmente dizendo é que aquele governo continuará precisando de seus serviços. A projeção não é um diagnóstico de saúde, é uma nota de crédito para o próximo empréstimo. E cada empréstimo que um governo toma é uma hipoteca sobre o trabalho futuro de gente que não nasceu ainda, o que, em qualquer outro contexto que não o da contabilidade pública, se chamaria pura e simplesmente de fraude.

O mais revelador de tudo, porém, é a reação. Um país sério, diante de uma projeção de 1,9% enquanto o mundo cresce 3,1%, faria uma autocrítica brutal. Perguntaria por que está ficando para trás. Investigaria quais regulações sufocam o empreendedor, quais impostos impedem a formação de capital, quais privilégios de carreira pública drenam o talento que deveria estar produzindo riqueza no setor privado. Mas não é isso que acontece. O que acontece é coletiva de imprensa, manchete positiva, e ministro sorrindo para a câmera como se 1,9% fosse uma conquista e não um atestado de mediocridade. O rei está nu, caminha pelo desfile, e o povo aplaude porque a alternativa, enxergar a nudez, exigiria perguntar quem costurou a roupa invisível e quanto custou ao erário.

No fim, a aritmética é impiedosa. Se o PIB cresce 1,9% e a população cresce 0,7%, o ganho per capita real é de pouco mais de 1%. Desconte a inflação real, não a maquiada pelo índice oficial, desconte o aumento da carga tributária que nunca diminui, desconte a deterioração dos serviços públicos que o cidadão paga duas vezes, uma no imposto e outra no plano de saúde privado, e o que sobra é algo próximo de nada. Mas o número bonito já cumpriu sua função: virou manchete, virou argumento em plenário, virou justificativa para o próximo pacote de gastos. Quem paga é você. Quem recebe, você já sabe.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.