Domingo, 3 de maio, Miami. Enquanto a imprensa especializada já havia decretado que a temporada seria um duelo laranja entre Lando Norris e Oscar Piastri, um italiano de sobrenome impronunciável para o locutor médio cruzou a linha de chegada na frente dos dois e estragou a narrativa pré-fabricada. Kimi Antonelli, da Mercedes, venceu o Grande Prêmio de Miami e chegou à terceira vitória consecutiva. Não foi sorte, não foi safety car providencial, não foi estratégia milagrosa de boxe. Foi pilotagem. Detalhe que parece menor, mas que num esporte cada vez mais sequestrado por engenheiros de software e diretores de marketing, equivale a uma pequena heresia.

É preciso entender o que está em jogo aqui, porque Fórmula 1 nunca foi sobre carrinhos correndo em círculo. É a vitrine mais cara do planeta para vender aço, alumínio, pneu, combustível, relógio suíço, perfume francês, criptomoeda duvidosa e, principalmente, a ilusão de que a engenharia europeia ainda manda no mundo. Cada volta custa o equivalente a uma escola pública inteira, e cada centésimo arrancado ao cronômetro é financiado por uma cadeia de patrocinadores que paga para ver seu logotipo na asa traseira. Quem paga é o consumidor final do refrigerante, do banco, do cartão de crédito. Quem recebe é a engrenagem inteira, do dono da equipe ao garoto que aperta o parafuso. Antonelli, ao vencer, acabou de valorizar um ativo bilionário com o pé direito sobre o acelerador.

O gesto bonito veio depois da bandeirada. O italiano dedicou a vitória a Alex Zanardi, aquele compatriota que perdeu as duas pernas num acidente brutal e voltou a correr, voltou a competir em Paralimpíadas, voltou a humilhar a autopiedade que tanta gente cultiva como hobby nacional. Há uma lógica simples e brutal nisso: o homem é definido pelo que faz, não pelo que lhe acontece. Zanardi não foi celebrado por discursos sobre resiliência publicados em revistas corporativas, foi celebrado porque andou de mão na manopla mais rápido que gente com pernas inteiras. Antonelli entendeu o recado e prestou a única homenagem que importa, a do exemplo replicado.

Repare na composição do pódio e o quadro fica mais saboroso. Mercedes na frente, McLaren atrás. Duas escuderias que vivem de subsídios cruzados, regulações ambientais convenientes e do teatro político da Fórmula E como penitência pelos pecados do motor a combustão. A tal sustentabilidade, vendida em coletivas de imprensa por executivos de terno cinza, convive sem rubor com aviões cargueiros que despejam motores em três continentes por mês. Hipocrisia sempre teve patrocínio garantido, e a categoria aprendeu cedo que, para continuar queimando combustível diante das câmeras, basta pagar a indulgência apropriada aos burocratas de Bruxelas.

Mas a beleza do esporte, quando o esporte ainda existe debaixo da camada de marketing, é que o cronômetro não negocia. Não há lobby que faça o carro andar mais, não há decreto que reduza o tempo de volta, não há comissão tripartite que entregue troféu a quem chegou em terceiro. O sujeito é rápido ou é lento, ponto. A meritocracia, palavra hoje proibida nos seminários universitários, sobrevive clandestina nos autódromos, escondida atrás dos contratos milionários, esperando que apareça um Antonelli de dezenove anos para lembrar que talento ainda vale mais do que conexão. Três vitórias seguidas não se forjam em comitê.

Resta a pergunta de sempre, aquela que devia abrir e fechar toda análise honesta. Quem paga essa festa toda em Miami, com arquibancadas montadas no estacionamento do estádio do Hard Rock, é o consumidor anônimo que comprou o produto anunciado. Quem recebe são os pilotos, as equipes, os promotores, a prefeitura local que arrecadou taxa por cada poltrona vendida e os burocratas internacionais que vivem de regular o que outros constroem. No meio dessa cadeia exploratória, de vez em quando aparece um momento genuíno, um garoto que ganha de verdade e dedica a vitória a um herói de carne e osso. Por esses cinco minutos de autenticidade, talvez o circo todo se justifique. Talvez.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.