Existe uma dignidade silenciosa e quase comovente no homem que sobe numa escada de alumínio, com um rolo de cola e uma pilha de placas de isopor, e decide que o teto rachado da sala vai, pelo menos, parecer decente. Ele não está renovando nada, no sentido técnico da palavra. Ele está cobrindo. Está aplicando uma camada de aparência sobre uma estrutura que o custo da vida não deixou que fosse tratada na raiz. O isopor esconde a umidade, a fissura, o reboco que soltou. E funciona, dentro de uma lógica que este país conhece muito bem: quando não se pode resolver, disfarça-se. Quando não se pode consertar, cobre-se. O brasileiro aprendeu isso tão cedo e tão bem que hoje ensina o truque em tutoriais no YouTube com entusiasmo genuíno.
Não há ironia maliciosa nisso, note-se. O forro de isopor é uma solução legítima, prática, barata e esteticamente funcional para quem precisa de resultado sem orçamento. O problema não é o isopor. O problema é a pergunta que ninguém faz no tutorial: por que um trabalhador que passa oito horas diárias contribuindo para o PIB de uma das maiores economias do planeta precisa apelar para uma placa de poliestireno expandido para ter um teto apresentável? A resposta está na carga tributária que incide sobre cada saco de cimento, cada metro de drywall, cada hora de mão de obra registrada. O Estado não cobra pedágio só na estrada. Ele cobra pedágio na contratação, no material, no serviço, na nota fiscal, e depois ainda tem a audácia de chamar isso de política habitacional.
Pense na cadeia. O operário que fabrica o cimento paga imposto sobre o salário. A empresa que vende o cimento paga imposto sobre o faturamento. O caminhão que transporta paga imposto sobre o combustível, que já é taxado na refinaria, que já foi taxada na exploração. A loja que vende ao consumidor paga ICMS, PIS, COFINS e uma sopa de siglas que somadas chegam a representar, dependendo do produto, quarenta, cinquenta por cento do preço final. E no fim da cadeia está o homem na escada, com o rolo de cola, fazendo as contas no celular e concluindo que o isopor é o que cabe no mês. Não é ignorância. É aritmética. É a resposta racional de um agente econômico submetido a uma pressão fiscal que qualquer país civilizado consideraria confisco.
Há algo de profundamente revelador no fato de que o acabamento que "esconde imperfeições" virou tendência de decoração. As imperfeições não sumiram. Foram cobertas. Existe aí uma metáfora que o Brasil inteiro poderia costurar num bordado e pendurar sobre o isopor: a arte nacional do encobrimento. Cobre-se a inflação com o nome de "pressão de demanda". Cobre-se o desemprego com o nome de "informalidade". Cobre-se a deterioração do serviço público com o nome de "subfinanciamento". E cobre-se o teto rachado com isopor barato, e todo mundo chama de renovação. A forma segue a função, como dizia o arquiteto. A forma desta sociedade segue a função de um Estado que prefere aparências a soluções, narrativas a realidade, cobertura a reparo.
A instalação cuidadosa do forro de isopor, conforme ensinam os tutoriais com a seriedade de uma aula de engenharia, requer juntas alinhadas, cola específica, atenção às bordas, paciência. É trabalho real, honesto, que merece respeito. O que não merece respeito é o sistema que tornou esse trabalho necessário como substituto de uma reforma que deveria ser acessível. Quando o custo da mão de obra registrada equivale ao dobro do salário que o trabalhador recebe, porque a diferença vai para a Previdência, o FGTS, o INSS patronal e mais um cardápio de encargos que existem para financiar aparatos burocráticos que se reproduzem sem produzir, o dono do imóvel faz o que qualquer pessoa racional faz: contrata na informalidade, faz ele mesmo, ou compra o isopor. Não é burrice. É sobrevivência dentro das regras de um jogo cujas cartas foram marcadas antes de ele nascer.
No fim, o forro de isopor cumpre o que promete. O teto fica bonito. O calor diminui um pouco. A rachadura some da vista. E o cidadão, satisfeito com a solução que encontrou sozinho, sem subsídio, sem programa de governo, sem consórcio público habitacional de eficiência duvidosa, volta para o seu cotidiano com a sensação de ter vencido uma batalha pequena contra a realidade. E venceu mesmo. O que é uma pena, porque o inimigo que o obrigou a lutar essa batalha continua no cargo, com salário integral, sem isopor no teto.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.