A manchete vende fascínio, como toda manchete que precisa fingir reverência diante do poder. Um sujeito está prestes a acumular um trilhão de dólares em patrimônio, e a redação corporativa se ajoelha para descrever o feito como prova da grandeza do capitalismo contemporâneo. Antes de bater palmas, faça o exercício mais elementar de qualquer adulto alfabetizado em economia: separe a pilha. De um lado, o dinheiro que veio de gente que escolheu comprar um carro elétrico, assinar uma rede social ou usar um foguete privado. Do outro, o dinheiro que veio de gente que jamais foi consultada, jamais assinou contrato e jamais teve direito de recusa, porque foi tributada para que o Tesouro pagasse a conta. A diferença entre essas duas pilhas é a diferença entre empresário e cortesão.
Comecemos pelos foguetes, que voam menos por mérito da física e mais por mérito da planilha de Washington. A empresa espacial em questão fatura bilhões em contratos com a agência aeroespacial do governo americano e com o departamento de defesa, dois fregueses que pagam preço de tabela porque usam dinheiro que não é deles. Quando o cliente é o Estado, o vendedor não precisa convencer ninguém, basta convencer o burocrata da licitação, e o burocrata convence o contribuinte na ponta da baioneta tributária. Chame isso de empreendedorismo se quiser, mas não confunda com o padeiro que acorda às quatro da manhã torcendo para o freguês entrar pela porta.
Passemos aos carros, esse altar do ambientalismo subsidiado. A montadora vendeu, durante anos, créditos regulatórios a outras montadoras obrigadas por lei a comprá-los, faturando bilhões sem produzir um único veículo a mais. Some os incentivos fiscais federais, os incentivos estaduais, os empréstimos subsidiados, os abatimentos de imposto para o comprador final, as fábricas erguidas com generosa cortesia de prefeituras famintas por foto de inauguração. O carro elétrico é vendido como ato de coragem mercadológica, quando boa parte de sua margem nasce de canetadas que obrigaram terceiros a pagar a festa. É a velha alquimia: transformar lei em lucro, e lucro em estátua.
Agora a parte que ninguém quer encarar de frente, a inflação monetária da última década e meia. Quando o banco central imprime trilhões para socorrer bolsas, sustentar juros artificialmente baixos e inflar todos os ativos financeiros, quem está mais perto da torneira recebe o dinheiro novo antes que ele perca poder de compra. Bilionários de tecnologia, com fortunas atreladas ao valor de mercado de suas ações, são os primeiros a beber dessa fonte. O assalariado que recebe o mesmo salário nominal seis meses depois descobre que o aluguel subiu, o feijão subiu, a gasolina subiu, e que sua poupança virou pó. Esse pó, somado, é o trilhão que a manchete celebra. Roubo silencioso, distribuído entre milhões, concentrado em um.
Não se trata de demonizar o sujeito, que afinal apenas joga o jogo cujas regras foram escritas para ele jogar. Trata-se de recusar a fábula. A fortuna em vias de cruzar a marca dos treze zeros não é monumento ao livre mercado, é radiografia de uma economia em que o sucesso máximo depende de proximidade com o poder estatal, com a máquina monetária e com a burocracia regulatória que esmaga concorrentes menores. O verdadeiro livre mercado seria barulhento, plural, com cem candidatos a trilionário se canibalizando até que o preço caísse ao chão e o consumidor ficasse com o excedente. Em vez disso, temos um vencedor único coroado pela imprensa, escoltado por subsídios e abençoado pela impressora de dinheiro. Isso não é capitalismo, é mercantilismo de gravata.
A pergunta, no fim, é a mesma do início. Quem pagou esse trilhão? Pagou o motorista que financiou crédito de carbono embutido no seguro. Pagou o cidadão cujo imposto custeou o contrato espacial. Pagou o aposentado cuja poupança foi corroída para inflar o múltiplo da ação. Pagou o concorrente menor esmagado pela regulação que o gigante ajudou a redigir. E quem recebeu? Um homem só, na capa da revista, sorrindo. Da próxima vez que lhe disserem que isso é o triunfo do mercado, lembre que a palavra mercado, no português honesto, pressupõe troca voluntária. Onde houve coerção, houve outra coisa, e o nome dela costuma ser escrito com tinta mais escura.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.