O escândalo, segundo o ilustre Fórum Brasileiro de Segurança Pública, não é que duas organizações criminosas controlem presídios, fronteiras, refinarias clandestinas de combustível, redes de transporte público e bairros inteiros de capitais brasileiras. O escândalo é que os Estados Unidos resolveram classificá-las como terroristas e, pior, que alguém no Brasil teve a ousadia de comentar o assunto em ano de eleição. A indignação, portanto, não recai sobre os fuzis, sobre as execuções sumárias nem sobre o pedágio cobrado a comerciantes em nome do bem comum da quadrilha. Recai sobre o timing. O bandido pode existir, desde que ninguém o mencione no microfone errado.
Convém perguntar, com a paciência de quem ensina aritmética a criança birrenta, o que exatamente faz um grupo armado que cobra tributo, julga, executa, monopoliza território e impõe regras de conduta sob pena de morte. Se a resposta honesta é que ele exerce, em pequena escala, exatamente as mesmas funções que o Estado moderno reivindica em grande escala, então talvez se entenda por que tantos especialistas em segurança pública preferem o termo asséptico, o jargão sociológico, a nota de rodapé acadêmica. Chamar o lobo de lobo cria um problema embaraçoso, porque obriga a explicar por que o cordeiro oficial cobra a mesma taxa de proteção e mata mais gente por ano.
Siga o dinheiro, que é o exercício mais subversivo que se pode fazer numa democracia tutelada. O Fórum vive de quê, exatamente? De estudos, convênios, parcerias, editais, repasses, congressos patrocinados, consultorias para secretarias estaduais, contratos com fundações internacionais e a generosa indústria do diagnóstico permanente da violência. É um setor inteiro de gente bem vestida que produz relatórios sobre o problema, jamais o resolve, e cuja sobrevivência institucional depende de que o problema continue exatamente onde está, nem maior demais a ponto de assustar o financiador, nem menor demais a ponto de tornar o consultor dispensável. Quando alguém de fora vem e simplifica o vocabulário, esse mercado tem um treco.
A queixa de que a pauta foi capturada pela disputa eleitoral tem ainda o charme involuntário da projeção. Quem captura há décadas o debate da segurança pública é precisamente a confraria que escreve as notas técnicas, dita as palavras permitidas, define quem é interlocutor legítimo e quem é populista grosseiro. A eleição apenas embaraça esse monopólio simbólico, porque devolve à praça a discussão que vinha sendo administrada nos seminários. Não é a política que invadiu a segurança pública; é a segurança pública que sempre foi política, só que política de um lado só, e agora o outro lado descobriu que também sabe falar.
Há ainda a questão geopolítica, tratada com escândalo provinciano. Um governo estrangeiro classifica como terroristas grupos que matam brasileiros, financiam-se com tráfico transnacional e operam em pelo menos meia dúzia de países vizinhos, e a reação local não é perguntar por que o próprio Estado brasileiro nunca chegou lá, e sim acusar de oportunismo quem reproduz a notícia. É o velho reflexo da elite intelectual que se envergonha do diagnóstico vindo de fora porque ele expõe, sem cerimônia, a inépcia ou a cumplicidade do diagnóstico de dentro. Melhor disputar a etiqueta do que enfrentar a coisa etiquetada.
No fim, a operação retórica é simples e velha como o mundo. Desloca-se o objeto da indignação, do criminoso para quem o nomeia, do crime para quem o denuncia, do poder paralelo para o adversário eleitoral. Enquanto se discute se foi adequado falar, o pedágio continua sendo cobrado, o fuzil continua atravessando a fronteira, o presídio continua sendo escritório, e o cidadão comum, esse personagem invisível em todos os relatórios, continua pagando duas vezes, em imposto para o Estado oficial e em medo para o Estado informal. Quem paga é sempre o mesmo. Quem recebe também. E quem escreve relatório sobre o assunto, claro, recebe à parte.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.