O enredo é digno de comédia de costumes tropical. Um deputado federal, eleito, salariado, beneficiado por auxílios, cotas e imunidades das mais generosas do planeta, simplesmente faz as malas e desaparece para fora das fronteiras sem a tal autorização que o regimento exige. A Câmara, percebendo o sumiço, não liga para o celular do colega nem manda um WhatsApp; vai correndo ao Supremo Tribunal Federal entregar o caso de bandeja a um ministro que já havia concedido habeas corpus ao parlamentar. É a instituição denunciando o próprio integrante para outra instituição, num balé de comunicados oficiais que custa caro e produz, no fim, exatamente nada de relevante para quem amanhece às cinco para pegar ônibus lotado.
Antes de avaliar quem está certo ou errado nessa fofoca palaciana, convém olhar para a estrutura. Existe uma classe política que legislou para si mesma a obrigação de pedir licença antes de viajar, e existe a mesma classe política que, ao desobedecer, será julgada por outra fração da mesma classe togada, todos vivendo do mesmo bolso, o seu. O cidadão comum, se atravessa a fronteira sem CPF regularizado, leva voadora da Polícia Federal. O parlamentar atravessa sem autorização da Casa e o castigo é virar manchete por três dias até a próxima distração. Há dois Brasis, e o passaporte deles é diferente do nosso.
Siga o dinheiro, sempre. Quem custeia essa viagem misteriosa? Quem paga o salário do deputado ausente, os assessores que continuam batendo ponto no gabinete vazio, o jato eventual, a diária, o ressarcimento de combustível, o gabinete climatizado que segue acumulando poeira enquanto o titular passeia em latitude desconhecida? O mesmo brasileiro que financia o STF que vai julgar, a Câmara que vai oficiar, o ministro que vai despachar, a assessoria de imprensa que vai redigir nota, o motorista que vai esperar o retorno do nobre fugitivo no aeroporto. É a engrenagem perfeita: o pagador é único, os recebedores se multiplicam como cogumelos depois da chuva.
Há também o teatrinho ideológico, que é onde a coisa fica deliciosa. O parlamentar em questão pertence à legenda que se vende como guardiã da ordem, da lei, do respeito às instituições. As mesmas instituições que ele agora ignora com a desenvoltura de quem ignora placa de pare em rua deserta. Já o ministro que o protegeu vem do polo oposto do espectro, vestiu toga depois de ter sido militante, ministro, candidato, e agora arbitra com a serenidade de quem entende que o jogo só funciona se ninguém quebrar de verdade as regras do tabuleiro. Inimigos no Twitter, sócios no cartório. O cidadão fica olhando para a briga e não percebe que é o boi marcado para o abate, enquanto os fazendeiros discutem o preço.
Se as palavras tivessem peso, a conclusão seria silogística e implacável. Quem aceita o cargo aceita as regras; quem viola as regras do cargo perde o cargo; logo, quem viajou sem autorização deveria estar fora do mandato amanhã pela manhã. Mas as palavras, em Brasília, têm a consistência do algodão doce, derretem na primeira saliva. A consequência real, todos sabemos, será nenhuma, ou quase nenhuma, talvez uma censura escrita, talvez um desconto simbólico, talvez um pedido de desculpas com voz embargada na tribuna, e a vida segue. A diferença entre uma república e uma cleptocracia bem vestida está exatamente nesse ponto: na cleptocracia, a regra existe apenas para o de baixo.
O leitor que se indigna está certo, mas precisa indignar-se um andar acima. Não é Frias o problema, é o sistema que produz Frias em escala industrial, com gabinete, jatinho e foro especial. Enquanto continuarmos achando normal que centenas de figuras vivam de mandato, viagem, auxílio, aposentadoria precoce e privilégios costurados em décadas de corporativismo, sempre haverá um novo episódio dessa novela, com novos nomes e a mesma sinopse. O fugitivo de hoje será o herói de amanhã ou o vilão da semana que vem; o que não muda é a conta no fim do mês, que chega pontualmente no seu contracheque, descontada na fonte, sem direito a viagem ao exterior nem habeas corpus.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.