Gabriel morreu num domingo de sol em Copacabana, esmagado por uma estrutura metálica que estava sendo erguida para que uma cantora colombiana cantasse de graça para uma multidão que jamais veria a fatura. O nome do evento é Todo Mundo no Rio, e o título não poderia ser mais honesto, porque todo mundo no Rio, e fora dele, vai pagar a conta, menos os três ou quatro figurões que dividem o lucro político e financeiro da brincadeira. O técnico de segurança do trabalho, justamente o sujeito contratado para impedir que a tragédia acontecesse, virou a tragédia. Há simbolismos que dispensam comentário, mas não vamos dispensá-los, porque é exatamente isso que a coluna faz.

Show gratuito é a expressão mais desonesta do vocabulário urbano contemporâneo. Não existe show gratuito, existe show pago por terceiros que não foram consultados. A prefeitura entra com o dinheiro do contribuinte, o governo do estado entra com o dinheiro do contribuinte, alguma estatal entra com o dinheiro do contribuinte disfarçado de patrocínio, e algum banco privado entra com o dinheiro que ganhou cobrando juros estratosféricos do mesmo contribuinte. No fim, a turista vinda de avião desfila descalça na areia enquanto o aposentado da Tijuca paga o cachê de oito dígitos sem nem saber que pagou. Chamam isso de fomento à cultura. No século passado tinham nome melhor, chamavam de pão e circo, e ao menos eram sinceros sobre a mecânica.

O cálculo do poder é cristalino para quem tem olhos. O político precisa de imagem, a imagem precisa de multidão, a multidão precisa de espetáculo, o espetáculo precisa de palco, o palco precisa de operários, e os operários, esses, são fungíveis. Estão na linha mais baixa da planilha, num campo chamado custo variável. Quando um deles cai, o evento não é cancelado, o evento é blindado por uma nota de pesar redigida por assessoria de imprensa em quinze minutos, com a palavra solidariedade repetida três vezes e nenhuma menção ao laudo da estrutura, ao prazo absurdo de montagem, à empresa terceirizada que venceu a licitação, à empresa quarteirizada que foi contratada pela terceirizada, e ao trabalhador que entrou na obra sem o equipamento que constava no contrato.

É sempre assim, e quem acompanha grandes eventos sabe. Réveillon, Carnaval, Rock in Rio, Fórmula 1, Copa do Mundo, Olimpíada. A cada festa monumental subsidiada, há um corpo que cai do andaime, um operário esmagado por treliça, um eletricista eletrocutado a poucas horas da abertura dos portões. As mortes entram na contabilidade como acidente lamentável, e a contabilidade segue lucrativa porque quem morre não está na cota de risco que importa, está na cota de risco que se descarta. Faraós também perderam escravos erguendo pirâmides, e a pirâmide continuou de pé. A diferença é que o faraó não fingia que estava promovendo turismo cultural sustentável.

A engrenagem da culpa difusa é a obra-prima desse arranjo. Pergunte quem é o responsável e a resposta será uma cebola de empresas, secretarias, subcontratados, alvarás, vistorias terceirizadas e laudos assinados por engenheiro que nunca pisou no canteiro. Cada camada existe para que a próxima possa dizer que cumpriu o protocolo. No fim, ninguém é culpado, todo mundo lamenta, e o cronograma do show é mantido porque cancelar custaria caro a quem efetivamente decide. O morto é enterrado, a viúva recebe alguma indenização raquítica depois de cinco anos de processo, e o palco é remontado em quarenta e oito horas porque o palco é o que importa. A vida do trabalhador, no balancete, vale menos do que o custo de adiar a apresentação em uma noite.

Por isso a pergunta não é quem matou Gabriel, porque a resposta jurídica virá embrulhada em jargão e prescrição. A pergunta é quem ganha com o evento que matou Gabriel. E a resposta é o prefeito que vai aparecer abraçando a cantora no telão, o governador que vai posar com a multidão ao fundo, a empresa de eventos que faturou a licitação, a agência de turismo que vendeu pacote, a emissora que comprou os direitos, e o ministério que justifica seu orçamento bilionário com a palavra cultura. Quem perde é o sujeito que acordou cedo no domingo, vestiu o uniforme, subiu na estrutura confiando que o protocolo seria respeitado, e nunca mais desceu. O resto é coreografia.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.