Ganhos de 196% em ações de semicondutores escolhidas por inteligência artificial, batendo o S&P 500 de goleada. É esse o título que circula nos portais como se fosse a segunda vinda do capitalismo, quando na verdade é o retrato mais fiel de um mercado dopado por liquidez artificial e narrativa de manada. Quer dizer, o algoritmo acertou porque escolheu o setor que mais recebeu dinheiro barato, incentivo fiscal americano via Chips Act, e euforia especulativa dos últimos três anos. Não precisava de rede neural pra isso, precisava de olho pra ver de onde o rio de crédito estava correndo.

Olha, o truque é antigo e a fantasia é nova. Quando o banco central mantém juros artificialmente reprimidos por uma década e depois inunda o sistema com trilhões em resposta à pandemia, o capital não fica parado esperando ordem do burocrata. Ele corre para o ativo da moda, e a moda foi decretada por Washington quando resolveu, na base do subsídio, que semicondutor era questão de segurança nacional. O algoritmo não descobriu nada; ele apenas seguiu o cheiro do dinheiro público sendo despejado num setor específico. Isso não é sabedoria de máquina, é reflexo condicionado diante de um estímulo grosseiro.

Me diz uma coisa: quantas vezes já vimos esse filme? Nos anos noventa era a internet, e todo bípede com um site chamado ponto com virava bilionário até a música parar. Em 2008 era imóvel americano, garantido pela sabedoria coletiva de que casa nunca desvaloriza, até desvalorizar. Agora é chip com selo de inteligência artificial, e o sujeito que compra ETF pela manhã acha que descobriu a pedra filosofal porque um software confirmou o que a CNBC já vinha gritando há dois anos. O ciclo é sempre o mesmo, muda só o brinquedo.

O que ninguém quer olhar é o que está por trás desses 196%. Está por trás a expansão monetária que corroeu o poder de compra do assalariado americano em quinze por cento no acumulado recente, enquanto o dono de ativo financeiro dobrou patrimônio. Essa é a redistribuição silenciosa que o Estado moderno pratica sem precisar aprovar imposto: imprime, dilui a moeda de quem trabalha, e o rendimento aparece na conta de quem já era rico. O algoritmo de seleção de ações é o beneficiário último dessa engenharia; ele apenas cavalga a onda que o banqueiro central fabricou.

E tem o detalhe delicioso da propaganda: vender como triunfo da tecnologia aquilo que é, na origem, triunfo do intervencionismo. O governo americano decide que quer indústria de chip em casa, joga cinquenta bilhões de dólares em subsídio direto, protege o mercado com tarifa contra a China, financia pesquisa acadêmica via Pentágono, e depois o mercado descobre, chocado, que essas empresas subiram. É a mesma lógica do camarada que empurra o carro ladeira abaixo e depois se admira que ele ganhou velocidade. Só que aqui o carro é comprado com dinheiro do contribuinte e a velocidade é embolsada por acionista de Manhattan.

A lição que fica não é sobre inteligência artificial nem sobre chip nenhum. É sobre a natureza do jogo. Enquanto houver dinheiro impresso do nada procurando destino, sempre haverá um setor da moda entregando retornos absurdos, e sempre haverá um vendedor de método milagroso empacotando a coincidência como descoberta. Quando a maré recuar, e ela sempre recua, veremos quem estava nadando sem calção. O algoritmo, coitado, não vai avisar antes.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.