Vamos começar pelo fato concreto, que é o mais embaraçoso para quem prefere a névoa da teoria: "Gente Grande" foi lançado em 2010, recebeu trinta e seis por cento de aprovação da crítica especializada e arrecadou duzentos e setenta e dois milhões de dólares em bilheteria mundial. A sequência, igualmente desprezada pelos mesmos árbitros do bom gosto, fez mais cento e trinta e três milhões. Pergunte a qualquer pessoa que viu o filme se ela se lembra de alguma cena. Ela vai lembrar. Pergunte se ela gostou. Vai dizer que sim, com aquele meio sorriso de quem confessa um prazer culposo que não deveria ter. Agora faça a pergunta certa: culposo por quê? Quem te ensinou a ter vergonha de gostar de algo que te fez bem?
A crítica cinematográfica, como qualquer classe intelectual que depende de subsídio institucional para existir, seja ele direto via editais e universidades públicas, seja indireto via prestígio de publicações que vivem de relações com estúdios e festivais, desenvolve com o tempo um gosto que serve menos à experiência humana e mais à manutenção de sua própria autoridade. O crítico não é pago para dizer o que o público sente. É pago para dizer ao público o que ele deveria sentir. A diferença entre essas duas funções é a distância exata entre a liberdade e a tutela. Quando o público vota com o bolso contra o veredicto do especialista, isso não é ignorância. É soberania. E a soberania do consumidor é a única democracia que funciona de fato, porque nela cada voto tem consequência real e não pode ser adulterado no cartório.
O que "Gente Grande" captura, e que incomoda profundamente quem vive de complicar o óbvio, é algo de uma simplicidade desconcertante: o ser humano é mais feliz quando está livre. Livre de agenda, de hierarquia corporativa, de tela, de expectativa social fabricada, de pressão de performance. O filme inteiro se passa num lago, numa casa velha, entre amigos que se conhecem desde crianças, ou seja, desde antes de aprender a fingir. Não há arco de redenção político. Não há mensagem sobre diversidade de representatividade e inclusão. Não há personagem que precise ser educado sobre seus privilégios. Há cinco homens adultos que pulam num lago, brigam com os filhos, incomodam as esposas e riem de si mesmos. E o mundo inteiro pagou para ver isso. Quinze anos depois, as pessoas ainda assistem de novo. Pergunte ao teórico cultural por quê. Ele vai gaguejar.
A lógica é inexorável uma vez enunciada: se a felicidade humana acontece espontaneamente quando os vínculos são naturais, os espaços são livres e a agenda é mínima, então tudo aquilo que se interpõe entre o homem e essa condição, seja o Estado que regulamenta o lago, seja a escola que coloniza a infância, seja o mercado de status que transforma cada fim de semana em performance para redes sociais, é, por definição, um fator de infelicidade. O filme não argumenta isso. Não precisa. Ele mostra. E mostrar é sempre mais honesto do que argumentar, porque argumento pode ser sofisticado o suficiente para camuflar a mentira, mas imagem que ressoa o faz porque tocou em algo verdadeiro. A verdade não precisa de PR.
O que a nostalgia de "Gente Grande" carrega, e que as pessoas sentem sem conseguir articular, é a memória de uma infância que o Estado ainda não havia administrado por completo. Uma época em que a criança saía de casa de manhã e voltava ao anoitecer sem que ninguém chamasse o conselho tutelar. Uma época em que a amizade se formava pela proximidade e pelo tempo compartilhado, não pela identidade de grupo curada por algoritmo. Uma época em que o adulto podia ser ridículo sem que isso virasse objeto de análise de saúde mental. Não é reacionarismo sentir falta disso. É reconhecimento de que algo foi perdido, e que o substituto que nos ofereceram em troca, o mundo administrado, regulado, monitorado, inclusivo por decreto e seguro por proibição, não preenche o espaço que deixou. Nunca vai preencher, porque não foi feito para isso. Foi feito para criar dependência, não para satisfazer.
No fim, "Gente Grande" é um documento involuntário de uma época em que a liberdade ainda tinha endereço físico: era aquele lago, aquela casa, aquele verão que nunca durou o suficiente. O fato de que uma comédia protagonizada por comediantes de segunda linha e desprezada por toda a crítica séria continue sendo assistida e lembrada com afeto genuíno quinze anos depois diz mais sobre o que o ser humano realmente quer do que qualquer política pública já disse. Quem paga? O público, de bolso próprio, sem incentivo fiscal, sem patrocínio estatal, sem obrigação curricular. Quem recebe? Aquela memória de que, antes de tudo que vieram nos vender como necessário, havia um lago. E o lago era suficiente.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.