A Genus, aquela empresa britânica que ganha rios de dinheiro vendendo genética de porco e gado para o mundo inteiro, resolveu que o melhor uso para sessenta milhões de libras é comprar suas próprias ações no mercado aberto. Anunciou o programa com a solenidade de quem descobriu a pólvora, e os analistas de banco, sempre prontos para bater palma quando a coreografia é familiar, correram para chamar de "retorno de capital ao acionista". Bonito no papel. No mundo real, é outra coisa.

Quando uma companhia decide que não tem projeto melhor para investir sessenta milhões de libras do que engolir as próprias ações, ela está dizendo em código, para quem sabe ler, que a fronteira de oportunidades ficou estreita. Não há uma nova linha de pesquisa que renda mais, não há um mercado emergente para conquistar, não há uma aquisição estratégica que valha o cheque. Sobra o velho truque contábil: diminuir o número de ações em circulação para que o lucro por ação suba matematicamente, sem que a empresa tenha produzido um centavo a mais de valor. É engenharia financeira dando um verniz de crescimento em algo que é, na melhor das hipóteses, estagnação disfarçada.

E aqui entra a parte que ninguém quer discutir na conferência trimestral. Quem realmente ganha com recompra bilionária? O executivo cujo bônus está indexado ao preço da ação e ao lucro por ação. O fundo de private equity que precisa de liquidez para sair da posição. O gestor de portfólio que precisava de uma notícia bonita para justificar o relatório do trimestre. O acionista de longo prazo, aquele que aguentou volatilidade acreditando no negócio, recebe, no melhor cenário, uma valorização artificial que se dissipa no primeiro vento contrário. No pior, vê a empresa endividar-se ou drenar caixa para financiar uma manobra que beneficia sobretudo quem já estava saindo pela porta dos fundos.

Existe uma diferença abissal entre uma companhia que gera caixa robusto e devolve o excedente porque genuinamente esgotou boas oportunidades de reinvestimento, e uma companhia que recompra ações porque a diretoria está com preguiça intelectual. A primeira é honesta com o acionista. A segunda está usando o dinheiro dele para manipular indicadores. E o mercado, viciado em métricas trimestrais, aplaude as duas com o mesmo entusiasmo, porque distinguir uma da outra exigiria pensar, e pensar dá trabalho.

O detalhe que passa despercebido é que sessenta milhões de libras não caem do céu. Vieram de algum lugar: de margem operacional, de corte de investimento em pesquisa, de adiamento de expansão, de dinheiro que poderia estar treinando gente, comprando equipamento, financiando a próxima geração de produtos que manteriam a Genus competitiva daqui a dez anos. A recompra é sempre a escolha do curto prazo sobre o longo prazo, do gestor que quer o bônus deste ano sobre o herdeiro da cadeira que receberá a empresa esvaziada dali a uma década. É a mesma lógica do político que gasta hoje e deixa a dívida para o próximo mandato, só que vestida de terno e falando inglês.

Não é ilegal, não é imoral no sentido estrito, e em determinadas circunstâncias até faz sentido econômico. Mas quando vira epidemia corporativa, quando toda semana uma empresa grande anuncia recompra bilionária, quando o mercado acionário global se transforma numa gigantesca máquina de reciclar caixa em vez de financiar novos empreendimentos, algo está fundamentalmente torto. A bolsa deveria ser o mecanismo pelo qual poupança se converte em capital produtivo. Virou o mecanismo pelo qual capital produtivo se converte em bônus de executivo. E ninguém quer falar sobre isso porque a festa ainda está boa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.