O escândalo, em si, é pequeno e revelador como toda miniatura bem pintada. Um ministro da corte mais cara do planeta, sentado numa cadeira que custa ao pagador de imposto cifras que dariam para construir escolas inteiras no interior do país, perguntou em tom grave se não seria ofensivo retratar um ex governador como boneco homossexual. Horas depois, o mesmo ministro pediu desculpas, porque descobriu, para seu espanto, que chamar de ofensa a mera palavra homossexual é exatamente o tipo de coisa que transforma o acusador no próprio homofóbico da história. O rei nu tropeçou no próprio manto antes mesmo de entrar no salão.
Repare no mecanismo, porque ele é sempre o mesmo e merece ser desmontado peça por peça. A premissa que o ministro quis empurrar é a de que toga não se discute, toga não se caricatura, toga não se critica em boneco inflável. A conclusão desejada era tornar a sátira política um crime, e de preferência um crime com pena dosada pelo próprio ofendido. O problema é que o silogismo anda para trás quando o sujeito é inteligente. Se chamar alguém de homossexual é ofensa, então quem considera ofensa é o ofensor, não o caricaturista. A lógica não pede licença a ninguém, muito menos a quem vive de vender autoridade moral no varejo.
Agora siga a trilha do dinheiro, que é o único mapa honesto em república de bacharel. Quem paga o salário do ministro que se acha tão acima da chacota? O sujeito da padaria, o motorista de aplicativo, o pequeno comerciante que recolhe imposto sobre imposto para sustentar um tribunal que, em vez de julgar, faz terapia de grupo contra memes. Quem recebe? Uma casta vitalícia que ocupa a mais alta corte e ainda assim se comporta como vereador melindroso em comissão de ética de clube de bairro. A conta fecha sempre do mesmo lado, e o lado que paga nunca é consultado sobre o cardápio.
A história é pródiga em mostrar o que acontece quando autoridade perde o senso de humor. Os imperadores romanos toleravam epigramas pregados no muro porque entendiam que rir do poder é válvula de escape que evita a guilhotina. Quando passaram a perseguir o libelista, descobriram tarde demais que o povo trocou a pena pelo ferro. A monarquia francesa achou que podia processar panfletário, e terminou com a cabeça rolando em praça pública diante de multidão que aprendera a rir primeiro e a agir depois. Toda vez que o homem de toga, coroa ou farda pede solenidade obrigatória, está apenas avisando que a legitimidade evaporou e sobrou somente a força nua.
E há um detalhe cômico no episódio, desses que um bom cronista não deixa escapar. O ministro tentou usar a bandeira da minoria para proteger o próprio corporativismo, e foi desautorizado pela própria minoria que pretendia instrumentalizar. Descobriu, em tempo real, que chamar homossexual de ofensa é exatamente o oposto de defender homossexuais. O tiro saiu pela culatra porque o cano estava torto desde o princípio. Quem manipula categoria alheia para salvar o próprio pescoço costuma terminar enforcado na corda que ele mesmo trançou.
Sobra a lição, que é velha e teimosa. Sátira não é crime, é termômetro. Quando o poder proíbe o riso, é porque o riso está certo. Quando o togado confunde caricatura com injúria, é porque não suporta olhar no espelho da opinião pública. A república de verdade se mede pela quantidade de chacota que seus magistrados toleram sem chamar a polícia federal. Pela régua de hoje, estamos muito mais perto do tribunal do Santo Ofício do que do fórum onde cidadãos livres discutiam, riam e decidiam seus próprios destinos. Quem paga essa conta, de novo, é o mesmo de sempre. Quem recebe, também.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.