A cena merece ser congelada para a posteridade. Um ministro vitalício, nomeado por presidente que ninguém lembra mais, sentado numa cadeira que custa ao contribuinte mais do que a escola inteira de qualquer bairro de periferia, decide com a ponta da caneta que a criança paulista não verá mais um símbolo militar dentro da sala de aula. A gestão pedagógica, diz o despacho com aquela solenidade que só os togados conseguem fabricar, deve permanecer com civis. Tradução em português de gente que paga a conta: a escola continua nas mãos de quem a quebrou, e quem ousou propor outra coisa volta para casa de orelha em pé.
Repare na engenharia do truque. Não se proibiu o modelo, porque proibir explicitamente seria escândalo midiático demais até para os padrões atuais. Castrou-se o modelo. Tiraram o uniforme, tiraram a hierarquia, tiraram o símbolo, tiraram a disciplina visível, e devolveram a casca para a mesma burocracia sindicalizada que transformou o ensino público brasileiro num depósito de menores monitorado por adultos esgotados. É o velho expediente do confeiteiro que promete bolo e entrega a forma vazia, lambuzada de cobertura para a foto do jornal.
Pergunta indelicada que nenhum repórter de Brasília fará: quem perde dinheiro se a escola cívico-militar dá certo? A resposta cabe num guardanapo. Perde o sindicato dos professores, que vive de greve e de filiação compulsória. Perdem as faculdades de pedagogia que vendem cursos de doutrina disfarçados de licenciatura. Perdem os fornecedores de material didático ideologicamente alinhado, que faturam bilhões com livros que ninguém lê. Perdem as ONGs que medram nos editais da educação. E perde, sobretudo, o partido que descobriu há quarenta anos que escola ruim produz eleitor cativo, porque cabeça vazia vota por estômago.
Há ainda o detalhe filosófico que ninguém quer encarar de frente. A decisão pressupõe que existe uma autoridade central, longe de tudo e de todos, capacitada a dizer ao pai e à mãe paulistas como deve ser organizada a sala onde o filho deles passa metade do dia. A premissa é a de que o Estado é o tutor natural da criança e os progenitores são meros usufrutuários temporários. Aceita esta premissa absurda, qualquer conclusão segue: pode-se proibir farda, pode-se proibir oração, pode-se proibir o que a casta togada considerar inadequado naquele almoço de quarta-feira. O paulista, que sustenta tudo isso com o imposto que paga até no pão da padaria, é tratado como menor incapaz na sua própria casa.
E note a hipocrisia anatômica do arranjo. Símbolo militar na escola é trauma, é autoritarismo, é regressão. Símbolo militar na fachada do Supremo, no brasão da República, na escolta do ministro que sobe a rampa com sirene aberta, isso é civilização. A farda na criança pobre da Zona Leste ofende a delicadeza democrática. A farda do soldado que protege a casa do ministro no Lago Sul, essa cumpre função pedagógica relevantíssima, porque ensina o respeito devido à toga. O rei reclama de quepe enquanto desfila de coroa, e a corte aplaude porque corte aplaude.
O resultado prático é o de sempre. As famílias que queriam disciplina, ordem e resultado para os filhos serão obrigadas a engolir mais uma rodada da pedagogia que produz adolescente que sai do ensino médio sem saber interpretar uma bula de remédio. Os que podem fugirão para a escola particular, alimentando o mercado que floresce justamente porque o Estado fracassa. Os que não podem ficarão lá, no depósito, agora oficialmente desmilitarizado, aguardando a próxima geração de togados para decidir, com a mesma solenidade, qual será o próximo símbolo a ser banido em nome da liberdade que ninguém mais tem.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.