O fato é simples e, justamente por ser simples, revela tudo. Gleisi Hoffmann deixou a Secretaria de Relações Institucionais, cargo de primeiro escalão da República, para disputar uma cadeira no Senado pelo Paraná. Em seu lugar, assume José Guimarães. Nas redes sociais, a deputada fez questão de agradecer ao namorado, Lindbergh Farias, pela parceria durante o período. Uma cena tocante, quase doméstica, que seria perfeitamente inofensiva se não envolvesse cargos pagos com dinheiro alheio, influência sobre bilhões em emendas parlamentares e a máquina de articulação política do governo federal. Quando um casal agradece um ao outro pela gestão de uma secretaria de Estado como quem agradece a ajuda na mudança de apartamento, alguma coisa no arranjo institucional já apodreceu faz tempo.
Observe o movimento com atenção cirúrgica. Gleisi não está saindo do governo porque fracassou, nem porque foi demitida, nem porque o cargo foi extinto. Está saindo porque há uma vaga mais interessante no horizonte, o Senado, que oferece mandato de oito anos, foro privilegiado e uma tribuna permanente. A Secretaria de Relações Institucionais serviu de trampolim, como sempre servem os cargos de confiança neste país. O contribuinte pagou o salário, a estrutura, a assessoria, os carros, as viagens, e agora financia a campanha indireta de quem usou o cargo como vitrine eleitoral. O padrão se repete com a regularidade de um relógio suíço: ocupa-se o ministério, acumula-se capital político às custas do erário, e parte-se para a próxima conquista. Quem paga a conta nunca muda. Quem senta na cadeira, também não.
O agradecimento a Lindbergh é o detalhe que transforma a notícia burocrática em radiografia. Lindbergh Farias, ex-senador, ex-prefeito de Nova Iguaçu, figura que orbita o poder petista há décadas, aparece como coadjuvante afetivo de uma operação que é, antes de tudo, política. Não se trata de julgar a vida sentimental de ninguém; trata-se de constatar que, no ecossistema do poder brasileiro, até os relacionamentos pessoais funcionam como engrenagens de articulação. Os mesmos nomes, os mesmos círculos, as mesmas famílias políticas girando ao redor do mesmo orçamento público como planetas ao redor de um sol feito de impostos. Se alguém de fora tentar entrar nesse sistema, descobrirá que as portas estão trancadas e que as chaves foram distribuídas entre os que já estavam dentro.
José Guimarães herda a SRI e, com ela, a função de negociar com o Congresso a distribuição de verbas, cargos e benesses que mantêm a base aliada alimentada. A secretaria existe para isso e para nada mais: é o balcão onde se troca apoio parlamentar por fatias do orçamento. Toda a solenidade institucional, os discursos sobre governabilidade e diálogo democrático, é verniz sobre um mercado de favores que funcionaria exatamente igual num bazar de Istambul, com a diferença de que no bazar o comerciante gasta o próprio dinheiro. Aqui, gasta-se o seu. A transição entre Gleisi e Guimarães não é uma renovação; é um revezamento entre sócios do mesmo empreendimento.
O que deveria chocar, mas já não choca, é a naturalidade com que tudo acontece. A deputada posta o agradecimento, a imprensa noticia, o público rola o feed e segue adiante. Ninguém pergunta quanto custou ao país manter Gleisi na SRI enquanto ela, evidentemente, já planejava o próximo passo eleitoral. Ninguém questiona se o cargo foi exercido em função do interesse público ou do interesse da ocupante. Ninguém exige prestação de contas porque, neste país, prestação de contas é uma expressão que só existe em documentos oficiais que ninguém lê. O arranjo é perfeito em sua circularidade: o Estado cria os cargos, os políticos ocupam os cargos, os políticos usam os cargos para se eleger, e uma vez eleitos criam mais cargos. O contribuinte, esse personagem invisível que financia toda a ópera, sequer tem assento na plateia.
No fim das contas, a pergunta que importa é sempre a mesma: quem paga e quem recebe? Você paga. Eles recebem. E ainda querem que você agradeça.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.