Há cenas que dispensam comentário, mas pedem registro para a posteridade rir. Neste sábado, em Curitiba, a deputada federal e presidente do Partido dos Trabalhadores subiu ao palanque do herdeiro político de uma das mais célebres dinastias do clientelismo paranaense, o filho de Requião, e cunhou a pérola da temporada: prometeu derrotar a "extrema direita no Brasil e o juiz ladrão no Paraná". O juiz ladrão, no léxico petista, é o homem que conduziu o processo que provou, com documento, delação, planilha e datashow, que o partido dela operou o maior esquema de assalto sistemático ao patrimônio público da história republicana. Em qualquer país adulto, isso se chamaria desaforo. Aqui se chama campanha.

Convém recordar a aritmética, porque a memória curta é a melhor amiga do larápio. Os cofres da estatal do petróleo foram esvaziados em bilhões, repartidos em percentuais cartelizados entre empreiteiras amigas, partidos da base e operadores de maleta. O dinheiro saía da bomba de gasolina do trabalhador e entrava na conta da Suíça do dirigente partidário. A engrenagem era tão azeitada que os próprios beneficiários a chamavam, sem ironia, de "mensalão" e depois de "petrolão", como quem batiza o cachorro de estimação. Pois é exatamente o partido que botou essa máquina para funcionar que agora vem, com cara lavada e microfone aberto, classificar de gatuno o sujeito que ousou ler os autos.

A estrutura lógica do ataque é digna de um manual de retórica às avessas. Se o juiz que condenou o chefe é ladrão, então o chefe é inocente; se o chefe é inocente, o dinheiro nunca foi roubado; se o dinheiro nunca foi roubado, então as planilhas, as delações, as devoluções voluntárias de milhões, os apartamentos triplex e os sítios em Atibaia caíram do céu por geração espontânea. É a velha tática do batedor de carteira que, ao ser pego com a mão na bolsa alheia, grita "pega ladrão" mais alto que a vítima, contando que a multidão, no susto, olhe para o lado errado. Funcionou nos becos da Idade Média, funciona nos palanques de Curitiba.

Repare no figurino do evento e na economia política do gesto. O lançamento da pré-candidatura do filho de Requião não é um piquenique cívico; é a negociação aberta de um pedaço do orçamento estadual futuro, com cargos, emendas, contratos de publicidade e nomeações em estatais regionais sendo loteados antes mesmo da urna. O xingamento ao senador adversário cumpre função litúrgica precisa: marcar território, animar a tropa que vive de dinheiro público, recordar aos militantes contratados que o inimigo está nomeado e tem endereço. Quem paga essa missa? O contribuinte paranaense, que sustenta cada palanque, cada cabo eleitoral travestido de servidor, cada secretaria criada para acomodar correligionário. Quem recebe? Os de sempre, os que se revezam no balcão da repartição transformada em diretório partidário.

Há ainda o detalhe delicioso de a acusação partir de quem deveria, por elementar pudor, ter feito voto de silêncio vitalício sobre o tema "honestidade alheia". A figura pública em questão integra a alta direção de uma legenda cujos quadros principais foram, em sequência industrial, condenados, presos, libertados por manobras processuais costuradas no andar de cima e, agora, reabilitados pelo mesmo tribunal que antes os condenara, numa peripécia jurídica que envergonharia até as cortes de salão da França pré-revolucionária. Chamar de ladrão, nesse currículo, é como o lobo acusar o pastor de roubar ovelha. A piada se conta sozinha; basta deixar o microfone aberto.

O resumo da ópera é simples e cabe num verso de cordel. O Estado virou propriedade de uma confraria, a confraria foi flagrada com a mão no cofre, parte dela cumpriu pena, outra parte fugiu pela porta dos fundos da jurisprudência, e agora, restauradas no poder, as mesmas mãos que esvaziaram a estatal apontam para o magistrado e gritam "pega ladrão". Resta ao cidadão, esse otário fiscal que financia tanto o assalto quanto o show pirotécnico que o disfarça, fazer a única coisa que ainda lhe sobra de soberania: rir, anotar e, na hora certa, lembrar. Lembrar que ladrão de verdade não denuncia, distribui cargo; e que o juiz que incomoda essa gente toda costuma, por mero acaso aritmético, estar do lado certo da história.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.