O céu abriu sobre o Mangueirão e a Globo fechou o sinal. Trinta e cinco minutos de paralisação foram o álibi meteorológico perfeito para uma decisão que já estava tomada antes mesmo de a primeira gota cair: tirar o Remo da tela e empurrar para o assinante o produto que a emissora preferia vender. Não foi a chuva que cancelou a transmissão, foi a planilha. A chuva apenas teve a gentileza de fornecer a desculpa, como o burocrata que descobre uma irregularidade no processo do desafeto exatamente no dia em que precisa entregar uma cabeça.
Convém lembrar o arranjo, porque é dele que tudo brota. A Globo não é uma emissora no sentido em que padaria é padaria. É concessionária pública, ou seja, opera num espectro eletromagnético que pertence formalmente ao contribuinte e foi entregue, por decisão política, a um grupo privado mediante contrapartidas. Esse grupo, por sua vez, monta um quase monopólio do futebol nacional comprando direitos em pacotes que sufocam concorrentes menores, e depois decide, em nome de critérios estritamente comerciais, qual partida o torcedor paraense tem o direito de assistir. Quem paga? O torcedor, em assinatura, em mensalidade de pacote, em anúncio embutido no preço do sabão em pó. Quem recebe? O clube grande do Sudeste, a emissora, o anunciante nacional. O Norte entra como cenário exótico nas chamadas de fim de ano.
O silogismo é grosseiro de tão evidente. Se a emissora detém os direitos de transmissão da Copa do Brasil, e se a Copa do Brasil é torneio nacional que envolve clubes de todas as regiões, então a emissora se comprometeu a transmitir os clubes de todas as regiões. Trocar Remo contra Palmeiras por outra partida durante a paralisação não é tecnicamente impossível, é editorialmente conveniente. E quando a conveniência editorial vence o compromisso contratual, o que se revela não é um problema de logística, é um problema de hierarquia: a torcida do Norte vale menos no balcão de São Paulo. Diga isso na cara do paraense em vez de inventar nuvem.
Há ainda o detalhe delicioso de chamarem isso de mercado. Mercado seria se o torcedor de Belém pudesse, no momento da interrupção, mudar de fornecedor e contratar outra empresa para transmitir o jogo do seu time. Não pode. O direito está trancado num cofre legal a sete chaves, garantido por contratos exclusivos avalizados pelo aparato estatal e pela tradição cartorial brasileira de proteger os fortes contra os fracos com o nome bonito de regulação. O que se chama de livre iniciativa por aqui é, na maior parte do tempo, reserva de mercado vestida de gravata. Quando a chuva atrapalha o produto principal, o cliente do produto secundário descobre que não era cliente, era figurante.
O torcedor do Remo aprendeu, de graça e debaixo de temporal, uma lição que custa caro nos manuais de economia política: numa estrutura de privilégio outorgado, você não é o consumidor soberano da propaganda institucional, você é a unidade de medida residual. Sua audiência só conta enquanto não atrapalha a audiência que conta de verdade. Você é o número que arredonda o relatório do trimestre, não o sujeito que define a grade. E quando o tempo fecha, é o seu jogo que some, nunca o do clube cujo patrocinador máster também patrocina o intervalo comercial.
No fim, a chuva passou, o gramado secou e a indignação ficou. Não pela água que caiu do céu, que essa é democrática e cai sobre justos e injustos, mas pelo critério que já estava lá, escondido sob o guarda-chuva corporativo, esperando uma desculpa qualquer para aparecer. Quem paga a conta do espetáculo é sempre o mesmo, e quem recebe os louros do espetáculo também. A meteorologia, coitada, só entrou para servir de pano de fundo a uma decisão que o departamento comercial já tinha tomado entre o café e o relatório de IBOPE.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.