O brasileiro chora num botequim porque um atacante errou o gol nos acréscimos, e no dia seguinte vai ao trabalho engolir, sem pestanejar, que metade do salário dele evaporou em tributos antes mesmo de cair na conta. Eis o retrato perfeito da nossa servidão voluntária, devidamente narrada em ondas curtas. Gol no fim, rádio no ouvido, e o país parado. Curioso que um povo capaz de decorar a escalação titular de 1970, com reservas, técnico e roupeiro, não consiga citar três deputados que votaram a favor do último aumento de imposto. Não é falha de memória, é desenho de projeto.
Há mais de dois mil anos um sujeito careca, sentado em colina romana, percebeu que multidão entretida não faz revolução. Pão e circo, fórmula testada, aprovada e patenteada pelos césares. Trocaram a toga pelo terno, o coliseu pelo Maracanã, o gladiador pelo camisa nove, e o resto continua idêntico. O imperador moderno não precisa nem oferecer o pão, basta garantir que a transmissão seja gratuita no rádio enquanto o supermercado cobra trinta por cento a mais por causa da inflação que ele mesmo fabricou. O torcedor abraça o desconhecido ao lado, grita, chora, e amanhã estará novamente disciplinado na fila do banco para pagar o boleto que financia a festa do próximo.
Repare na engenharia financeira por trás do espetáculo que comoveu gerações. O estádio onde aquele gol histórico aconteceu raramente foi construído com capital privado posto em risco por empresários adultos. Foi erguido com renúncia fiscal, empréstimo subsidiado por banco público, desapropriação a preço de banana e obra superfaturada que corre na Justiça até hoje, se é que corre. O clube, salvo honrosas exceções, deve milhões em tributos federais, parcela, renegocia, perdoa, e segue contratando craque importado enquanto o pequeno comerciante perde o ponto por atraso de três meses no INSS. Há dois pesos, há duas medidas, e há um locutor berrando gol para que ninguém preste atenção na conta.
O argumento da paixão nacional, sempre invocado para justificar o injustificável, é falacioso na raiz. Paixão é coisa do indivíduo, é foro íntimo, é dinheiro do próprio bolso gasto como bem entender no ingresso, na camisa, na assinatura do canal. Vira outra coisa quando se transforma em pretexto para arrancar recurso de quem detesta futebol, de quem prefere xadrez, de quem queria apenas que a estrada de casa não tivesse buraco. Aí já não é paixão, é confisco com trilha sonora. E o pior é que o confiscado aplaude, porque o gol foi bonito e o narrador chorou junto.
A guerra cultural mais decisiva não se trava no parlamento nem na universidade, trava-se exatamente nesses minutos finais em que o país inteiro suspende a razão para viver uma emoção fabricada por terceiros. Enquanto o sujeito acredita que aquele gol é dele, que aquele time é dele, que aquela camisa é dele, ele aceita pacificamente que sua casa, seu carro, sua poupança e seu futuro pertençam, na prática, a um arranjo de burocratas, cartolas e patrocinadores estatais disfarçados. Vendem identidade a quem já perdeu o patrimônio. É o golpe mais elegante da história, porque a vítima sai do estádio cantando.
Então, antes da próxima rodada que vai parar o Brasil, faça o exercício simples e desconfortável. Pergunte quem ergueu o estádio, com que dinheiro, sob que isenção, com que dívida pendurada em qual contribuinte. Pergunte quem ganha com o ibope, quem fatura com a verba publicitária pública, quem nomeia o presidente da federação que finge ser entidade privada mas vive de cartório oficial. Quando souber a resposta, o gol no último minuto continuará bonito, porque beleza é beleza, mas a lágrima vai mudar de endereço. Chorar de emoção é direito sagrado. Chorar de burrice é hábito que precisa parar.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.