Ricardo Couto sentou na cadeira do chefe e, em menos tempo do que leva para esquentar o café, assinou a demissão de mais de quinhentas pessoas. Casa Civil e Secretaria de Governo, o coração político do Palácio Guanabara, amanheceram na última quinta feira com o chão forrado de cartas de exoneração. Chamam isso de reestruturação administrativa. É um eufemismo bonito para aquilo que sempre foi: a troca da guarda no palácio, o ritual antiquíssimo em que o novo senhor expulsa os criados do antigo para acomodar os seus.
Convém lembrar ao leitor distraído que ninguém exonera quinhentos funcionários porque descobriu, de repente, um surto de incompetência. Quinhentos cargos não são quinhentos trabalhadores. São quinhentos contratos políticos, quinhentas fidelidades compradas, quinhentas dívidas pagas em forma de salário público. Cada cadeira dessas representa um acordo, um apadrinhamento, uma conta acertada em algum jantar discreto. Quando se corta meio milhar de cabeças de uma vez, não se está enxugando máquina; está se reescrevendo o livro caixa do poder.
E aqui a mágica fica interessante. O dinheiro que paga esses cargos não brota do bolso do governador interino, nem do bolso do titular afastado, nem do bolso de quem aplaude a manobra. Sai do contribuinte fluminense, aquele mesmo que paga IPVA de arrepiar, ICMS inflacionário e uma conta de luz que parece financiamento imobiliário. O carioca sustenta o circo inteiro e não é convidado para a festa; apenas recebe, na caixa postal, o boleto para a próxima temporada. O cargo comissionado é a forma mais antiga e mais cínica de redistribuir riqueza roubada: tira se do pagador de imposto e transfere se para o fiel escudeiro do ocupante da vez.
Observe a lógica implacável do arranjo. Se o governo funcionasse para entregar serviço ao cidadão, a troca de um governador por outro, ainda que interino, produziria, no máximo, ajustes pontuais em funções técnicas. Ora, se quinhentos cargos mudam de mão num fim de semana sem que hospital fique pior nem escola fique melhor, fica evidente que esses cargos nunca existiram para servir o cidadão. Existiam para servir o grupo político. A conclusão se impõe sozinha, sem precisar de esforço: o aparelho estatal, no Rio e em toda parte, é antes de tudo uma máquina de alimentar aliados, e só acidentalmente uma máquina de prestar serviços.
Há quem aplauda a faxina como gesto de coragem, como se o interino fosse um faxineiro moral varrendo a sujeira alheia. Ingenuidade, ou pior, conivência. Ninguém demite quinhentos para deixar as cadeiras vazias; demite para preencher com os próprios. A novela tem roteiro fixo desde os tempos em que os imperadores romanos, ao assumirem o trono, promoviam o que se chamava eufemisticamente de renovação do funcionalismo palaciano, que consistia, traduzindo do latim para o português, em botar os amigos para dentro e jogar os inimigos aos leões. Mudam as fantasias, o figurino permanece.
Resta ao carioca, pagador compulsório de toda essa coreografia, fazer a única pergunta que importa e que ninguém na imprensa oficial se dá ao trabalho de formular. Quem paga os quinhentos que saíram? O contribuinte. Quem vai pagar os quinhentos que entrarão? O contribuinte. E quem colhe o dividendo político da reengenharia do apadrinhamento? Qualquer um, menos o contribuinte. Esta é a equação que sustenta a república; tudo o mais é prosa para encher telejornal.
Com informações do O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.