O fato é seco e não admite floreio: a governadora do Distrito Federal deu entrada num hospital com pneumotórax, aquela condição em que o ar escapa do pulmão e se aloja no espaço pleural, comprimindo o órgão e exigindo intervenção rápida. Desejamos, como qualquer pessoa decente desejaria a qualquer outra, recuperação plena e silenciosa. Mas o jornalismo de verdade não se ajoelha diante do paciente quando o paciente é também a autoridade que assina o orçamento da saúde pública. A doença é privada; o cargo, não.
Repare na coreografia: assim que o nome do gabinete entra na ficha de admissão, abre-se uma dimensão paralela do sistema de saúde brasileiro. Suíte reservada, equipe multidisciplinar acionada em minutos, boletim médico redigido com a mesma cautela de uma nota do banco central, assessoria de imprensa controlando a vazão da informação como se fosse válvula de torpedo. Enquanto isso, a dois quilômetros dali, uma senhora qualquer com o mesmo pneumotórax aguarda transferência, reza para que a maca não falte e descobre que o dreno torácico vai depender da boa vontade do plantonista. O ar que faltou ao pulmão da governadora sobra na sala de espera de quem paga a conta.
Não se trata de torcer pelo pior, jamais. Trata se de notar que o mesmo Estado que se diz universal, gratuito e equânime opera, na prática, como hotelaria de castas. Quem manda no orçamento da saúde tem acesso à melhor saúde. Quem financia o orçamento da saúde, isto é, o sujeito que trabalha das sete às sete e recolhe imposto até no boleto do gás, tem acesso ao folheto explicativo da unidade básica. O mecanismo é antigo, vem desde os tempos em que o nobre adoecia no castelo e o servo morria no estábulo, e foi apenas repintado com a tinta fresca da retórica republicana.
Sigamos a trilha do dinheiro, que é o único caminho honesto numa república que perdeu o pudor. O Distrito Federal queima bilhões anuais com a máquina de saúde, mantém Secretaria, subsecretarias, fundações, consórcios, contratos de gestão com organizações sociais cujos balanços ninguém lê e cujas diretorias quase sempre têm parentesco semântico com o gabinete da vez. Cada real arrancado do contribuinte deveria voltar como atendimento; volta como folha de pagamento inflada, terceirização opaca e propaganda institucional ensinando o povo a agradecer pelo serviço que ele mesmo custeou. O resultado é a estatística cruel de sempre: morre na fila quem pagou pelo leito, e desfruta do leito quem nunca pagou nada além do próprio capricho.
Há ainda o capítulo simbólico, que talvez seja o mais revelador. Toda vez que um ocupante de cargo adoece, a imprensa amiga se mobiliza em prol da empatia obrigatória, como se questionar o privilégio fosse pecado contra a humanidade. É o velho truque de confundir a pessoa física com a função pública, transformar crítica institucional em crueldade pessoal, blindar o cargo atrás da fragilidade do corpo. Funciona porque o brasileiro foi treinado a confundir respeito com submissão. Mas o leitor desta coluna sabe distinguir: deseja se boa saúde ao indivíduo e péssima saúde ao arranjo que o protege enquanto desampara o resto.
Que a governadora se recupere, repita se, e volte ao trabalho. E que, ao voltar, encontre sobre a mesa a pergunta que de fato importa, a única que justifica a existência de qualquer governo digno do nome: por que o pulmão dela teve dreno em vinte minutos e o pulmão do contribuinte que custeia sua suíte continua esperando vaga? Enquanto a resposta for o silêncio constrangido de sempre, o pneumotórax mais grave da república não está no tórax de ninguém, está no próprio pacto que finge nos representar.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.