A cena se repete com a pontualidade britânica dos desastres tropicais. Sobe o petróleo lá fora, o ministro aparece de gravata na televisão, a voz embargada de estadista, e anuncia que o governo, em sua infinita generosidade, decidiu ampliar os subsídios ao óleo diesel e prorrogar até 31 de julho os benefícios tributários sobre combustíveis. O caminhoneiro respira. O motorista de aplicativo respira. A dona de casa, que vê o tomate descer do caminhão, respira. E ninguém pergunta a pergunta óbvia, a única que importa, aquela que devia abrir todo noticiário econômico deste país: de onde sai o dinheiro que vai pagar essa benevolência?

Porque dinheiro não nasce em árvore de Brasília, por mais que o jardim do Palácio sugira o contrário. Cada centavo de subsídio é centavo que saiu, sai ou sairá do bolso de alguém. E esse alguém, invariavelmente, é você. Ou você pagou ontem, via imposto sobre seu salário, sobre sua geladeira, sobre sua conta de luz; ou você paga hoje, via inflação, esse confisco silencioso que corrói a poupança do aposentado enquanto o economista oficial chama de "ajuste de preços relativos"; ou você pagará amanhã, via dívida pública, que é apenas o eufemismo elegante para imposto adiado com juros. O subsídio é mágica de palco. O coelho que aparece na cartola foi colocado lá antes, e o ingresso do espetáculo, naturalmente, já saiu da sua carteira.

Observe o silogismo, é de uma simplicidade brutal. Toda política pública beneficia alguém específico. Subsidiar o diesel beneficia, em primeiro lugar, os grandes distribuidores de combustíveis, que mantêm margem confortável enquanto repassam o desconto governamental; em segundo lugar, o próprio governo, que compra paz social com dinheiro alheio e vende a si mesmo como benfeitor; em terceiro, a indústria que depende de logística rodoviária, perpetuando um modelo de transporte ineficiente que só sobrevive porque o Estado mascara seu custo real. Quem perde? O contribuinte difuso, anônimo, sem lobby, sem assessoria parlamentar, sem reunião na Esplanada. A vítima perfeita, porque nem sabe que foi roubada.

Há algo de tragicômico na pretensão de "conter a alta dos combustíveis" decretando que ela não existe. É como o imperador que, vendo a maré subir, ordena às ondas que recuem. O preço internacional do petróleo sobe por razões que nenhum decreto resolve, guerra no Oriente, decisões de cartel, dólar valorizado, ciclo de investimento, e a resposta do governo é mandar a Petrobras vender mais barato do que pode, deixar o Tesouro cobrir o buraco, e fingir que a aritmética foi suspensa pela vontade soberana do gabinete. O preço continua lá, intacto, apenas redistribuído. Você não vê na bomba, mas sente no supermercado, no aluguel, no boleto da escola. O custo não desaparece, ele se camufla.

E há, claro, a parte deliciosamente cínica do enredo, a prorrogação até 31 de julho. Por que julho? Porque dezembro fica longe, porque novembro tem eleição municipal, porque cada nova prorrogação é uma nova cerimônia, uma nova entrevista coletiva, uma nova oportunidade de aparecer como salvador. O subsídio temporário é a forma mais brilhante de tornar permanente uma intervenção, porque ninguém ousa retirá-lo na data marcada sem provocar revolta. Cria-se a dependência, depois se administra a abstinência. É o velho truque do agiota que empresta na sexta-feira sabendo que cobrará na segunda, com juros morais embutidos.

No fim, a conta fecha sempre do mesmo jeito. Quem paga é o trabalhador que nunca foi consultado, quem recebe é o arranjo de sempre, distribuidoras, transportadoras, agroindústria de exportação e o próprio governo, que sai da história com o aplauso dos beneficiados e a anestesia dos pagadores. Cobrir o preço do diesel com dinheiro do Tesouro é o mesmo que pegar emprestado do seu bolso esquerdo para encher seu bolso direito, descontar uma taxa de manuseio no caminho, e ainda exigir gratidão pelo serviço. O rei está nu, o decreto é uma fantasia, e a banda continua tocando.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.