Wellington Dias foi à imprensa dizer que o Planalto quer aprovar a PEC da assistência social antes que o calendário eleitoral atrapalhe. Leia de novo, devagar: o governo quer aprovar uma emenda constitucional que amplia gastos sociais antes da eleição, e a justificativa oficial é que não quer que a eleição atrapalhe. É como o dono do cassino pedindo que fechem as portas para que ninguém o acuse de estar jogando. A pressa não é para evitar o uso eleitoral da medida; a pressa é para garantir que o uso eleitoral esteja consumado antes que qualquer opositor tenha tempo de reagir. O truque é velho, mas funciona: quem distribui o pão antes do circo não precisa pedir aplausos, eles vêm de graça.

O ministro declarou, com a solenidade de quem anuncia uma descoberta científica, que não há ninguém "mais interessado" no tema do que o presidente. E aqui reside a confissão involuntária que nenhum assessor de comunicação conseguiu filtrar. Porque de fato não há ninguém mais interessado. A assistência social, no modelo brasileiro, não é uma rede de proteção temporária para quem tropeçou na vida; é uma máquina de produção industrial de dependência, e quem controla a máquina controla os dependentes. Cada família que recebe, cada cadastro que se renova, cada benefício que se expande é um voto que não precisa ser pedido, apenas mantido. O interesse de Lula não é humanitário, é contábil. Ele sabe, como todo político que sobreviveu quatro décadas no ofício, que o eleitor agradecido é o eleitor mais barato que existe.

A escolha do instrumento já diz tudo. Uma PEC, uma emenda à Constituição, não é um projeto de lei qualquer que o próximo governo pode revogar com uma canetada. É uma âncora cravada no texto constitucional, um compromisso de gasto que sobrevive a mandatos, a crises, a qualquer tentativa futura de racionalidade fiscal. O governo não quer apenas gastar mais agora; quer tornar constitucionalmente impossível gastar menos depois. É a lógica do parasita que, não contente em sugar o hospedeiro, altera o DNA dele para garantir que a sucção seja permanente. E quem paga? O contribuinte, naturalmente, esse personagem invisível que financia todas as generosidades alheias sem jamais ser consultado. Cada real que a PEC destina à "assistência" é um real que foi antes arrancado de alguém que acordou cedo, trabalhou, produziu e teve parte do fruto do seu esforço confiscado para que um político pudesse, diante das câmeras, fazer cara de bom samaritano.

A menção ao calendário eleitoral é particularmente reveladora. Em qualquer país minimamente sério, a proximidade de uma eleição seria razão para não aprovar medidas de expansão de gastos, justamente para evitar a suspeita de compra de votos institucionalizada. No Brasil, a lógica se inverte: a eleição é o motivo para acelerar. O Planalto não teme que a PEC seja usada eleitoralmente; teme que, se deixar para depois, outro partido tente roubar o crédito. A disputa não é sobre ajudar os pobres. É sobre quem carimba o nome no cheque. Os pobres são o pretexto; o poder é o produto.

Há um padrão histórico que qualquer observador honesto reconhece. Toda grande expansão de assistencialismo estatal na história moderna veio acompanhada de duas coisas: aumento da carga tributária sobre quem produz e aumento do controle político sobre quem recebe. Não é coincidência, é arquitetura. O Estado que dá é o mesmo Estado que cobra, e cobra duas vezes: uma em impostos, outra em obediência. A PEC da assistência social não é um ato de compaixão governamental. É um contrato de servidão redigido em linguagem jurídica, onde o beneficiário assina com o voto e o contribuinte paga com o suor. E quando Wellington Dias diz que querem evitar "atraso", o que ele realmente quer dizer é que a janela de oportunidade para consolidar essa engenharia de dependência está se fechando, e o governo precisa cravar o prego antes que alguém perceba que o caixão é o do orçamento público.

No fim das contas, a pergunta que ninguém faz nos corredores de Brasília é a única que importa: se a assistência social funciona tão bem, por que o número de assistidos só aumenta? Se o remédio cura, por que o paciente nunca recebe alta? A resposta é simples, e é exatamente por isso que ninguém a pronuncia: porque o objetivo nunca foi curar. Foi medicar permanentemente, fidelizar o doente, e mandar a conta para o vizinho saudável. Quem paga é você. Quem recebe, além do beneficiário que mal sai da miséria, é o aparato político que transforma pobreza em mandato. E disso, de fato, ninguém é mais interessado do que Lula.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.