A cena beira o surrealismo de uma comédia mal escrita. O mesmo governo que ano passado decretou imposto sobre encomendas internacionais, batizou de Remessa Conforme com aquele eufemismo burocrático que sempre antecede a tesoura no contracheque alheio, agora sobe nas redes sociais para celebrar o fim da taxação como se houvesse derrotado um inimigo externo. É o piromaníaco que chama a imprensa para fotografá-lo apagando o incêndio que ele próprio ateou. Funciona porque a memória do eleitor médio dura, com generosidade, três meses, e o tempo da indignação organizada nas redes dura ainda menos.
Vamos ao trivial que ninguém quer ler nos comunicados oficiais. Em 2025, a tal medida arrecadou cinco bilhões de reais. Cinco bilhões. Quem pagou essa conta? Não foi a Shein, não foi a Shopee, não foi nenhum bilionário chinês de sobrenome impronunciável. Foi a empregada doméstica que comprava blusinha de quarenta reais para a filha, o estudante que pegava um fone de ouvido por oitenta, a costureira da periferia que importava aviamento porque no mercado interno custa o triplo. O imposto sobre o pobre travestido de proteção à indústria nacional é um clássico tão velho quanto o mercantilismo do século XVI, quando coroas europeias proibiam tecidos indianos para sustentar tear de protegido da corte.
Quem recebeu? Aí o silogismo é brutal em sua simplicidade. Toda barreira tarifária beneficia, por definição, o produtor doméstico menos eficiente, aquele que não consegue competir em preço e qualidade e por isso precisa do braço armado do Estado para impedir que o consumidor escolha livremente. Os varejistas tradicionais, com suas margens gordas e seus lobistas bem pagos em Brasília, foram os verdadeiros destinatários do cheque. O consumidor pagou, o varejo recebeu, o governo arrecadou. Três no mesmo balcão, e quem apanha é sempre o mesmo: o sujeito que ganha salário mínimo e queria comprar uma calça por cinquenta reais sem que o fisco aparecesse na porta pedindo gorjeta.
O detalhe deliciosamente perverso é o anúncio do fim da taxa. Não houve clareza, não houve revogação solene, houve apenas um post nas redes com emoji de festa, como se o governo fosse uma página de promoções de supermercado. A informação oficial, leitor atento, sai sempre dessa forma quando o objetivo é confundir a autoria do crime. A pergunta que ninguém faz em coletiva: se a taxação foi tão maravilhosa para a indústria nacional, por que estão acabando com ela? E se está acabando, quem vai devolver os cinco bilhões cobrados indevidamente da classe trabalhadora ao longo de 2025? Resposta sincera, dessas que jamais virão de um microfone oficial: ninguém vai devolver nada, porque a função do imposto nunca foi proteger ninguém além do orçamento do confiscador.
Existe um padrão antigo e tedioso nessa novela. O Estado cria o problema, vende a solução, cobra pelos dois serviços e ainda exige aplausos no final. Inventa a inflação imprimindo papel, depois aparece com pacote heroico contra a carestia. Quebra a economia com regulação asfixiante, depois oferece subsídio salvador para empresas amigas. Encarece a importação para amparar oligopólios locais, depois suspende a medida e pede vitória nas redes. O cidadão, treinado por décadas de catequese estatista, aplaude as duas pontas da extorsão porque foi convencido de que o ladrão de capa é, na verdade, seu protetor.
A pergunta final, aquela que organiza tudo, permanece intacta no centro do tabuleiro. Quem pagou os cinco bilhões? O pobre que comprava blusinha. Quem recebeu? O conglomerado varejista nacional e o Tesouro. Quem está comemorando agora o fim da taxa? Exatamente quem criou a taxa. E quem segue acreditando que essa estrutura existe para protegê-lo? O leitor que ainda não terminou de ler esta coluna. Quando a peça é tão mal feita assim, rir é a única reação digna que sobra ao espectador.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.