Setenta milhões de reais. É o preço de uma aeronave militar que o governo do Rio de Janeiro estava a um carimbo de comprar, até que alguém na cúpula do Palácio Guanabara resolveu, tardiamente, fazer aquilo que deveria ter sido feito antes do primeiro edital ser publicado: olhar para a procedência da máquina e para o currículo das empresas envolvidas. O resultado dessa olhadela enviesada foi a descoberta de "suspeitas", palavra elástica e covarde que serve para tudo, desde um pequeno erro burocrático até um esquema operando sob holofotes há meses. Suspender a compra, nesse contexto, não é virtude. É o reflexo do ladrão que ouve a sirene e finge que estava só passando.

Convém lembrar, antes que o noticiário enterre o assunto na próxima manchete, de onde vêm esses setenta milhões. Não brotam do solo carioca, não caem do céu junto com a chuva da Baixada, não são extraídos da mina particular de nenhum secretário. Saem do bolso do sujeito que pega ônibus em Bangu, do comerciante que paga ICMS sobre tudo o que respira, do contribuinte que, sob a ameaça permanente do confisco legalizado, financia compulsoriamente as aventuras aeronáuticas dos seus governantes. O Estado não tem dinheiro próprio. Tem o seu, tomado à força e devolvido em forma de helicóptero suspeito. A diferença entre o assaltante e o burocrata é apenas a papelada.

Há um padrão antigo nessa coreografia, tão antigo quanto a corte de Bizâncio comprando elefantes para impressionar emissários estrangeiros. O governante descobre, milagrosamente, que precisa de um brinquedo caro. O brinquedo costuma ser justamente aquele que abre espaço para fornecedores opacos, empresas de fachada, intermediários que aparecem na hora certa e somem na hora seguinte. Os "vínculos entre empresas que participaram da licitação", expressão burocrática que merece tradução simultânea, costumam significar que os concorrentes eram sócios do mesmo notário, primos do mesmo doador, ou tinham sede no mesmo apartamento alugado em algum endereço genérico da zona sul.

Note a lógica implacável do arranjo. Se a licitação é limpa, não há suspeita. Se há suspeita, a licitação não é limpa. Se não é limpa, alguém montou o esquema. Se alguém montou o esquema, esse alguém tem nome, CPF, salário pago pelo erário e, provavelmente, agenda de almoços que jamais será publicada no diário oficial. Suspender o contrato sem nomear, indiciar e prender é o equivalente a flagrar o caixa subtraindo cédulas e responder pedindo que ele, por gentileza, devolva o que sobrou. O recado para os próximos é luminoso: tentem de novo, com mais cuidado.

O detalhe pitoresco, quase cômico, é a aeronave escolhida. Helicóptero militar de fabricação estrangeira, símbolo predileto de governadores que confundem segurança pública com cenário de filme americano. O cidadão do Méier não pediu Black Hawk. Pediu hospital com leito, escola com professor, rua com asfalto e polícia que não confunda morador com inimigo de guerra. Mas a vaidade do poder gosta de pales metálicas girando sobre a cabeça da plebe, gosta de fotografia de cúpula desembarcando em zona de operação, gosta sobretudo das comissões que orbitam, silenciosas, em torno de cada parafuso importado.

Fica a pergunta que abre e encerra qualquer análise honesta sobre essa farsa: quem ia pagar e quem ia receber? Pagar, já sabemos, é sempre o mesmo otário de carteira de identidade e contracheque. Receber, é a parte que o Palácio Guanabara prefere deixar em suspenso, na esperança de que a memória curta do público transforme o escândalo em nota de rodapé. Não vai. Pelo menos não aqui.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.