O céu desabou sobre a Paraíba e, num timing digno de companhia teatral, eis que surge o ministro da Integração anunciando que está em contato com as autoridades locais. Notável proeza semântica: estar em contato virou política pública. Telefone tocando agora é obra de governo. E o cidadão, que viu o telhado ir embora pelo riacho, recebe como consolo a notícia de que técnicos federais estão a caminho, presumivelmente de terno, prancheta e diária paga, para constatar in loco aquilo que qualquer morador da região já sabia antes mesmo da primeira trovoada.

Convém lembrar uma obviedade que a propaganda oficial faz questão de soterrar: o governo federal não tem dinheiro próprio. Cada real que aterrissa na Paraíba em forma de socorro emergencial saiu antes, por confisco compulsório, do bolso de alguém. O lojista de Campina Grande, o motorista de aplicativo de São Paulo, a costureira de Manaus, todos financiaram, sem serem consultados, a comitiva da compaixão estatal. A mágica do palco é fazer parecer dádiva aquilo que é apenas devolução parcial, com desconto generoso de comissão, daquilo que já foi tomado à força.

O roteiro se repete com pontualidade litúrgica. Chove, alaga, morre gente, vem o ministro, vem a foto, vem o helicóptero, vem o decreto de calamidade, vem a liberação de verba extraordinária e, principalmente, vem a empreiteira amiga que vai reconstruir a ponte que a prefeitura amiga deveria ter mantido. É o ciclo virtuoso da tragédia gerenciada: o desastre que deveria envergonhar o poder público é convertido, por alquimia eleitoral, em vitrine de eficiência. Quanto pior o estrago, melhor a manchete. Quanto mais desabrigados, mais palanque.

E aqui entra a parte que os jornais educados se recusam a digerir: as enchentes recorrentes do semiárido nordestino não são fenômeno meteorológico inédito, são problema crônico, mapeado, previsível, anunciado a cada estação chuvosa há décadas. Drenagem urbana, contenção de encostas, planejamento de assentamento, isso custa pouco e exige competência técnica permanente. O que custa caro, e dá voto, é o socorro emergencial fotografado. A administração preventiva não rende inauguração. O caos rende. Logo, o sistema premia o caos. A coisa é o que é, não o que a coletiva de imprensa jura ser.

Repare na escolha das palavras: garantir o apoio, acompanhar a situação, estar em contato. Verbos que não comprometem nada, prazos que não existem, valores que não foram divulgados, responsáveis que não serão nomeados. É a gramática do poder que aprendeu a falar sem dizer, prometer sem entregar, gastar sem prestar contas. E quando, daqui a três meses, a verba liberada tiver evaporado entre aditivos contratuais e empresas de fachada, ninguém vai lembrar do telhado da dona Maria, porque a próxima enchente já estará produzindo material para o próximo ministro.

No fim, a pergunta sobrevive ao temporal: quem pagou a conta dessa missão humanitária e quem embolsou o lucro dela? O contribuinte anônimo pagou, como sempre. O ministro embolsou a manchete, a empreiteira embolsou o contrato, o cacique local embolsou o voto e o desabrigado embolsou uma cesta básica e a obrigação eterna de gratidão. É o melhor negócio do mundo, e o único em que o cliente é forçado a comprar, agradecer e ainda aplaudir o vendedor.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.